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Publicado: Sexta-feira, 14 de março de 2008

Internetês - Parte 1

Os seres humanos se distinguem dos outros animais por serem os únicos em toda a natureza com a capacidade intelectual de raciocinar e criar meios de comunicação. Em suma, foi isso o que possibilitou à raça humana desenvolver-se de modo a dominar o planeta.

 

Nas teorias sobre comunicação, bem como nos estudos sobre a lingüística, podemos tomar conhecimento da importância do ato de construir e transmitir idéias. Em um outro segmento de estudo, mais amplo e denominado semiologia, aprendemos que há diversas formas de linguagem.

 

Existem as palavras escritas, a língua falada, os sinais, os símbolos, as imagens e até mesmo os nossos gestos corporais, todos carregando consigo um determinado significado por parte de quem os transmite e uma interpretação da parte de quem as recebe. Nessa troca de significâncias, fica estabelecida uma comunicação. Esta pode ter vários graus de complexidade, mas em resumo permitem que duas ou mais pessoas se compreendam.

 

Desde que os primeiros seres humanos começaram a trocar grunhidos para se entenderem, muita coisa mudou. A evolução dos modos de se comunicar é constante, mesmo que nos passe despercebido. Trata-se de algo lento e gradual, nem sempre identificável à primeira vista. Somente com o passar dos anos é que a coletividade em geral percebe as mudanças, já então totalmente incorporadas por todos.

 

As frases carregadas de contextos próprios de cada sociedade implementam na comunicação cotidiana várias forças de expressão. Como o “dar no pé”, no sentido de sair correndo. Ou então o “chutar o balde”, significando perder a paciência com algo. Em Buenos Aires, um “tarado pelado” nada mais é do que um “maluco careca”. Em Portugal comprar um “durex” não é pagar pela famosa fita adesiva, mas sim adquirir preservativos.

 

A informática mexeu com o modo dos seres humanos se comunicarem. A introdução de novas tecnologias trouxe consigo meios até então desconhecidos de transmitir idéias. A linguagem escrita agradeceu, pois para ler e enviar e-mails, além de usar outros recursos da internet, é preciso saber como fazê-lo corretamente. Sem perceberem, hoje as pessoas escrevem e lêem muito mais.

 

Quantidade não é sinônimo de qualidade. Podemos observar nas salas de bate-papo, nos e-mails e nas conversas via comunicadores instantâneos, um certo relaxo dos usuários no trato da Língua Portuguesa. São facilmente identificáveis os vícios de linguagem, a falta de acentuação, a conjugação errada de verbos, a utilização de pronomes fora do contexto. Tudo isso misturado com o uso de vários símbolos, figurinhas e gravuras. Está formado assim um imenso caldeirão comunicativo, com vários elementos interagindo simultaneamente para a propagação de mensagens.

 

Alguns chegam a classificar esse caldo comunicativo como um novo segmento dentro das linguagens. Em tom de brincadeira, debatem sobre esse tal “internetês”, que valoriza muito mais os fonemas (sons) do que os signos (letras), para trocar informações. A comunicação na internet foi automaticamente sendo facilitada pelos próprios usuários e ninguém deixou de se entender por causa disso.

 

Em termos de praticidade, o internetês funciona. De fato, basta estar familiarizado com a língua e ser esperto o suficiente para compreender o significado de uma série enorme de abreviações e usos de fonemas. De certo modo, chega mesmo a ser divertido. Percebe-se a criatividade dessa geração que nasceu praticamente ligada aos computadores, trocando os livros enciclopédicos pelo Google, os telefonemas pelo MSN e o pião pelos jogos 3D (em três dimensões).

 

Particularmente, não consigo fazer pleno uso do internetês. Exceto em casos extremos, quando necessito realmente de comunicação rápida e urgente, lanço mão desse sistema abreviado de escrita. Os ossos do ofício, que me obrigam ao uso da norma culta da língua portuguesa (ao menos na escrita) acabaram me viciando a escrever corretamente, nem que seja para uma conversa descontraída via internet.

 

Para alegria de uns e revolta de outros, de qualquer forma o internetês existe e chegou para ficar. Pode-se não usá-lo, mas deve-se ao menos saber da sua existência. Em um próximo artigo tentarei relatar alguns dos usos do internetês, a título de curiosidade.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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