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Publicado: Segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Inocência e Beatriz

Eugênio e Cibele já eram casados há alguns anos e queriam muito ter um filho, mas, o tempo passava e nada de aparecer o tão sonhado herdeiro.

Fizeram todos os exames e tratamentos possíveis, mas o médico dizia sempre que não havia nada de errado com eles e que a qualquer momento ela poderia engravidar. Só que o tempo ia passando e eles, cada vez ficavam mais ansiosos e impacientes com a espera daquilo que já lhes parecia um milagre que nunca aconteceria.

Começaram a aventar a hipótese de adotar um bebê, mas não era bem isso o que queriam, principalmente o Eugênio dizia que queria mesmo era um filho seu, sangue de seu sangue. E resolviam esperar mais um pouco.

Certo dia Cibele foi de ônibus até uma cidade próxima fazer uma visita e, na volta, sentou-se ao lado de uma mocinha de aparência muito modesta em adiantado estado de gravidez.
Começaram a conversar e a moça contou-lhe que era empregada doméstica, morava na casa dos patrões e que a patroa já avisara que depois que o bebê nascesse ia dispensá-la. O namorado tinha prometido casar-se, mas brigaram e ele a deixou.

- Vou dar o bebê para adoção, mas gostaria de dar para alguém que eu conhecesse e que soubesse que ia cuidar bem dela. É uma menina!

Uma rápida ideia passou pela mente de Cibele. Ela podia bem adotar a menina. Entretanto ponderou ainda:
 - Você pensou bem? Olhe que dar um filho é uma coisa muito séria. Será que não vai se arrepender depois?

- Eu não tenho outra alternativa. Vou doar o bebê e voltar para a minha Terra, lá no Ceará. Vou viver com minha família. Criar juízo!

- E por que não leva o bebê?

- Deus me livre! Meu pai é capaz de matar nós duas!

Cibele acabou confidenciando à outra as suas frustrações e concluiu:
 - Por que será que a vida é tão cruel com a gente? Você preocupada porque vai ter um filho e eu aborrecida porque não consigo ter um!

Quando o ônibus chegou à cidade Cibele já estava decidida a adotar a menina da Alaíde.
Não tinha dúvida de que aquele encontro não fora por acaso. Que Deus ouvira suas preces e estava mandando uma filhinha, por caminhos indiretos. Deu o endereço para que ela a procurasse assim que saísse do seu emprego para a licença-maternidade.

Convencer o Eugênio foi mais fácil do que Cibele esperava. Ela estava tão empolgada que acabou por contagiá-lo e os dois começaram a fazer mil planos para a filhinha. Um temor, porém os assaltava. Será que Alaíde viria procurá-los mesmo? Será que não ia resolver outra coisa?

Ela chegou quinze dias antes do nascimento da menina e Cibele e Eugênio a hospedaram durante esses dias. Juntas, Cibele e Alaíde arrumaram o quartinho que o bebê ocuparia e escolheram as roupinhas. Cibele, às vezes tinha pena da outra.

Que tristeza deixar o bebê e ir embora!

E questionava:
 - Será que você não vai de arrepender-se?

- Imagine! Eu estou muito feliz em saber que ela terá pais tão bons! Vou embora com a consciência tranquila, porque fiz o que era melhor para ela.

Quando Cibele contou a Alaíde que ela e Eugênio tinham escolhido o nome de Beatriz para a filha ela disse:
Se ela fosse ficar comigo se chamaria Inocência. Acho lindo este nome!

Cibele pensou:
Nós podíamos deixar que ela escolhesse o nome... Pelo menos isso... Mas... Inocência!...Não!... Ela vai chamar-se Beatriz!

Quando chegou o dia, Cibele arrumou a malinha da Beatriz, levou Alaíde a um bom hospital e a bebezinha veio ao mundo. Era linda, perfeita, saudável e Cibele e Eugênio ficaram felicíssimos.

No segundo dia, porém, quando foram visitá-las, tiveram uma desagradável surpresa. Foram informados de que Alaíde fora embora e levara o bebê. Deixara um bilhete para Cibele onde, em poucas palavras dizia que ela e o namorado resolveram ficar juntos e criar a Inocência. Seguiam alguns agradecimentos, pedidos de desculpas, etc. Cibele e Eugênio ficaram desolados. Sentiram-se ludibriados. Será que Alaíde tinha premeditado esse golpe? Será que só quisera aproveitar-se de sua hospitalidade? Que o tempo todo sabia que não ia dar a filha para adoção? Ou será que, realmente, ela e o namorado sentiram-se tocados com a presença da filhinha?

Estas perguntas sem respostas continuaram fervilhando na mente de Cibele e por mais que Eugênio dissesse que isso agora não fazia diferença, que podiam adotar outra criança, ela não conseguia aceitar a situação. Começou a sentir-se indisposta, sem apetite, doente, e Eugênio levou-a ao médico para uma consulta.

Depois de um rápido exame o médico indagou:
 - Você não está fazendo o pré-natal?

- Pré-natal? Mas eu não estou grávida, eu ia adotar um bebê!

O médico riu, divertido:
 - Como não? Olhe lá. É uma menina!

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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