Colunistas

Publicado: Quinta-feira, 15 de julho de 2010

I'm Not a Self Made Man! À minha querida Babe Gold

Eu desafio o sonho americano: o homem que se fez sozinho na vida. Isto não existe. Nós somos constituídos por um passado que treanscende a nossa existência. Carregamos a história de nossos antepassados dentro de nós. Gostemos ou não, sejam elas boas ou ruins.

Somos constituídos pelas forças e pelas limitações que isto nos imprime. Podemos até superá-las ou não, conseguir aproveitá-las ou não, mas elas estão lá. São lições que poderemos aproveitar se, um dia, conseguirmos compreender. São lições emocionais, incentivos e às vezes traumas e barreiras.

Ontem estive até tarde no hospital, ao lado da Babe Golda, minha querida avó de noventa e cinco anos. Fiquei ali segurando a sua mão carinhosa assistindo a minha vida passar na minha cabeça como um filme. Um filme de cenas em que ela participou. Lembrei e tive saudades de tantos parentes que eu nem conheci, e que, de alguma forma, ela me apresentou ao longo da vida. Meus bisavós que fugiram da Europa e aqui chegaram sem saber português, sem saber o que fazer e sem saber o que encontrariam. Meus primos distantes, meu tios do passado. Personagens da minha vida com quem jamais tive contato. Minha avó é, de alguma forma, o mais vivo e forte elo de ligação que tenho com eles. Minha babe golda – babe quer dizer avó em idish – que nasceu no interior da Polônia e que morava em uma casa de pau-a-pique que meu bisavô construiu com as próprias mãos. Minha avó que brincava no Rio Stiir quando ele se congelava e que passava frio nos dias de inverno europeu, pois não tinham dinheiro para comprar roupas. Adolescente teve de deixar o mundo que conhecia para vir ao novo mundo. Veio, forte, anotou tudo em cadernos que deram origem a um pequeno livro onde leio a minha história. A história de uma família que sou eu. Minha avó é um personagem da minha vida e da de muitos de nós. Na minha família ela segue sendo um elo. Dos nossos queridos primos que ao sair da Europa se espalharam pelos Brasil, EUA, Uruguai... Um elo entre os que se foram e os que chegaram...

Ela também foi dura, egoísta, egocêntrica. Teve todos os defeitos de um ser humano com uma história difícil, que também marcaram seus filhos, seus netos. Misturados com o carinho e o cuidado dos jantares na sua casa, dos pães deliciosos, das comidas judaicas tradicionais que disputava com minha outra querida avó, Babe Feige e com a sua irmã, minha Tia Male, pra ver qual era a receita mais gostosa. Foi dura porque hoje está serena, cheia de carinho e gratidão. Observando a família que contruiu neste novo mundo. Beijando seus muitos bisnetos – uns nascendo, outros estudando medicina - assistindo seus dez netos...

Ontem, ao seu lado, segurando sua mão que perdeu força, ao lado de sua boca que se calou, olhando nos olhos dela que me olhavam atentos, assisti minha vida maior que minha própria existência. Ao respirar fundo na minha resiliência lembrei que foi ela em seu fusquinha azul – ela foi uma das primeiras mulheres a tirar carta de motorista no Brasil – que me levou para assistir Gandhi. Eu não sabia o quanto ele ainda influenciaria o que eu sou. Mas lembrei daquela tarde lá atrás, em que ela me levou pra conhecê-lo.

Minha vó não é uma pessoa perfeita. Nunca foi. Sempre foi uma pessoa cheia de antagonismo e paradoxos. Mas sempre foi uma pessoa forte, cheia de vontade de vida, que enfrentou um mundo cruel, perdeu muito e contruiu muito. Minha avó é a presença em minha vida de uma história, de pessoas queridas que conheci e que se foram e de pessoas queridas que se foram sem eu conhecer. Quem bom ter a mão dela pra segurar e os olhos dela pra me olhar.

Comentários