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Publicado: Sábado, 27 de outubro de 2007

Humilde Tratado Sobre a Paz

Uma das coisas que o mundo atual mais necessita é de paz. Quanto vale a paz? Pergunte aos povos em guerra, aos casais que vivem em litígio, aos que vivem atormentados pela própria consciência. A paz é valiosa para todo o mundo, porém mais ainda para aqueles que já a perderam.
 
Tão valiosa é a paz que o Criador, ao mandar os anjos anunciarem a chegada de seu Filho amado, ordenou que dissessem: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados!”. Tão valiosa é a paz que este mesmo Filho deu sua vida por nós, para que a humanidade pudesse ter a paz e a salvação no lugar dos grilhões do pecado.
 
Paz não é apenas a ausência de conflitos. Paz é também um estado de espírito. Aos falecidos, desejamos que descansem “em paz”. Nas festas de fim de ano, sempre desejamos paz a todos. Viver em paz pode ser considerado até uma filosofia de vida, na visão daqueles que se esforçam por estar em harmonia com o mundo todo.
 
De fato, ainda recordando a Sagrada Escritura, de que vale ao ser humano ganhar a vida inteira, se vier a perder a sua paz? Os piores tipos de loucura acontecem não apenas pela falta de sanidade, mas, sobretudo quando se perde a paz interior. Ter a paz é manter o espírito sereno e pronto para suportar os piores episódios desta vida terrena.
 
A paz não é um bem material e por isso de nada vale se ficar guardada. Trata-se de um dom divino e por isso mesmo deve ser repartida com todos. Nesse ponto recordo as palavras de São Francisco de Assis, um dos grandes mestres da simplicidade da vida: “Senhor, fazei de mim um instrumento da tua paz!”. Isso nos lembra que somos apenas seres muito limitados, que em nossa pequenez devemos nos colocar à disposição de Deus para levar a paz (e por conseqüência o amor) aos nossos semelhantes.
 
Conseguir paz na vida é um desafio para muita gente. Os que a conseguem conquistar não devem guardá-la como um tesouro. Ao contrário, devem aprender a partilhar esse dom. De que vale o sal, se não for para salgar? De que vale a luz, se não for para iluminar? De que vale a paz, se não for para espalhar? Quem tenta guardar a paz só para si acaba perdendo-a sem perceber, pois se torna egoísta. A paz é generosa por natureza e funciona nas bases do milagre da multiplicação: quanto mais a repartimos, mais temos dela para nós mesmos.
 
Como podemos espalhar a paz? Não há nada de esotérico nisto. A paz pode ser mostrada e repartida principalmente através dos nossos atos, a forma mais honesta de um ser humano demonstrar aquilo que é realmente verdadeiro. Um cumprimento sincero, uma atenção apropriada na hora devida, uma palavra amiga em um momento de sufoco, um testemunho fiel do carinho que temos por outra pessoa, um esforço real em benefício daqueles com quem nos importamos e até mesmo um silêncio compreensível naquelas horas em que palavra alguma pode ajudar.
 
Não gosto de dar muita importância ao lado trágico e negativo da existência humana, porém é inevitável. A função dos que filosofam é mostrar os dois lados da moeda, todos os lados do polígono. Triste é o destino daqueles que têm por principal motivo na vida, tirar a paz dos outros. A esses melhor seria que amarrassem uma pedra ao pescoço e se jogassem no fundo do mar. Aos olhos de Deus, os que vivem tramando e maquinando planos a fim de acabar com a paz alheia, causam um grande escândalo. São dignos não da nossa ira ou vingança, mas sobretudo das nossas orações e compaixão.
 
A paz é irmã do amor, pois não há como ter a primeira sem possuir o segundo. Vive em paz aqueles que amam. E todos aqueles que amam vivem em paz. Em nossa luta cotidiana pela felicidade, de nada adianta buscar as duas coisas separadamente. Uma está embutida na outra e esse é um dos mistérios que a mente humana não compreende. Quantas barbaridades sem tamanho já foram cometidas por ódio, inveja, ganância, egoísmo e orgulho? Entretanto, muito mais nobres são os exemplos daqueles que testemunharam a paz e o amor.
 
Existe um dia específico para se lutar pela paz. E esse dia é hoje. O hoje não é o ontem, que já passou. O hoje não é o amanhã, que pode nunca chegar. O hoje é hoje, este exato instante em que você lê o presente artigo. A hora de buscar a sua paz e a dos outros é exatamente esta. Nunca é tarde para começar, sempre é hora. Trata-se do único exercício que realmente vale a pena. Se não for para viver em paz, de que vale a vida? Se não for para partilhar a paz, de que vale tê-la?
 
Amém. 
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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