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Publicado: Sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Horário Chatoral Pertuito

Crédito: Internet Horário Chatoral Pertuito
O horário eleitoral não é gratuito: custa a nossa paciência em suportá-lo.

Está no ar novamente essa excrecência anacrônica chamada “Horário Eleitoral Gratuito”, imposta a todas as emissoras de rádio e televisão do país. Surgido no tempo dos governos militares, na década de 1970, a intenção até que é bonita no papel. Trata-se, na teoria, de proporcionar a candidatos a cargos eletivos a oportunidade de divulgarem suas intenções e plataformas de governança, além do próprio número da candidatura e do partido a quem estão filiados.

Como dizem, de boas intenções o inferno está cheio. Na pseudo-democracia em que vivemos, somos praticamente obrigados a conviver com os tipos mais prosaicos invadindo nossos aparelhos, nossos olhos e ouvidos. O horário eleitoral virou motivo de chacota. Pouca gente assiste essa salada-de-frutas partidária a que o sistema vigente nas eleições nos obriga. Grande parte das pessoas desliga seu aparelho e, graças a Deus, existe a internet. E até mesmo as redes sociais já estão chatérrimamente saturadas de memes, fakenews, propagandas em foto e em vídeos, etc.

Para piorar, o tempo destinado a cada coligação não é igualitário como mandaria a lógica. Por exemplo: seis coligações, para 60 minutos, dez minutos para cada. Não, não. Até parece que no Brasil a lógica é seguida em alguma coisa. O sistema que define os minutos de cada coligação é baseado numa intricada somatória que leva em conta o número de deputados de cada partido. Assim, o sistema desafia a inteligência do eleitorado. Enquanto uns candidatos têm vários minutos, outros ficam com poucos segundos.

Outro problema são os conteúdos. O marketing político transforma o horário eleitoral em peças publicitárias dignas de um Oscar de efeitos especiais. Algumas promessas dos candidatos beiram à ficção científica. Dizem que “o papel aceita tudo”. Bom, o horário eleitoral também. Além disso alguns candidatos, em vez de utilizarem seu tempo para apresentar propostas condizentes com os anseios do eleitorado, dedicam-se a fazer a caveira dos adversários. É a velha tática de guerrilha cultural: como não se consegue votos por serem os melhores, alguns lutam para fazer os outros parecerem piores.

Alguém pode argumentar que bastaria desligar a televisão e o rádio nos tempos determinados. Mas desde uns tempos para cá o horário eleitoral se estende também em dezenas de esquetes, mini-propagandas políticas ao longo de toda a programação midiática. Num momento estamos assistindo ao telejornal e em seguida aparece aquele do “pior não fica”. Num minuto estamos apreciando uma música, no outro temos de ouvir aquele invasor de prédios explorador dos desabrigados.

Proponho que o horário eleitoral, a cada eleição, seja veiculada 24 horas num canal à parte, tanto na TV aberta quanto na fechada. Seria uma espécie de Canal Eleitoral. Assim, na época de eleições, quem quisesse assistiria, de livre e espontânea vontade, a qualquer hora do dia e da noite. Se temos a TV Justiça, a TV Senado, a TV Câmara e afins, por que não mais uma? Quando não estivesse em período eleitoral, o Canal Eleitoral veicularia conteúdos educativos e informativos a respeito da legislação do voto, as funções dos diversos cargos públicos, etc.

Esta é apenas uma das coisinhas que precisa ser pensada e mudada no sistema eleitoral vigente e que atrapalha o processo realmente democrático. Na verdade o horário eleitoral não é gratuito, pois nós o pagamos com a paciência de suportá-lo. Do jeito que está, o horário eleitoral é pertuito, ou seja, uma verdadeira furada.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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