Colunistas

Publicado: Sábado, 27 de fevereiro de 2010

História de um passarinho

Eis que, no meio da aula de língua portuguesa, um passarinho entrou pela janela. O alvoroço da criançada foi repentino. As meninas gritaram e os meninos ficaram com o pescoço torto, tentando acompanhar a trajetória do bichinho no ar.

“Calma, é apenas um passarinho” disse o professor. Mas que nada! Aquilo era inusitado demais para a classe. Um feito que todos comentariam durante a semana e que impedia o mestre de retomar o assunto até então abordado nas atividades de classe.

Quanto mais os alunos se espantavam, mais gritavam. E quanto mais gritavam, mais o passarinho se agitava. Voava de um lado para outro da classe, tentando reencontrar a janela por onde entrou. Cada rasante que dava fazia crescer mais uma onda de gritinhos de espanto, gerando ainda mais barulho.

Após dez minutos de voo contínuo, a novidade foi perdendo graça. Os alunos foram se aquietando. O professor pensou que seria o momento ideal para retomar as atividades. Conseguiu reconquistar a atenção de todos e continuou seu assunto do dia.

Novo espanto geral quando o passarinho sentou-se na base de uma das cortinas da classe. Ficou lá em cima parado, mexendo a pequena cabeça para um e outro lado. Os alunos observavam, como se nunca tivessem visto um bicho daqueles por aí.

“Não se alvorocem de novo”, pediu o professor. “Fiquem quietos que o passarinho também ficará no canto dele. Vamos prosseguir com a aula”. A ideia agradou. Os alunos continuaram com os olhos vidrados no passarinho, mas ao menos em silêncio podiam escutar as lições apresentadas.

Foram muitas as tentações para a molecada. Queriam jogar uma bolinha de papel no passarinho. Queriam sacudir a cortina para fazê-lo voar de novo. Um moleque chegou mesmo a mostrar um estilingue guardado na mochila. Mas a ala das meninas fez beicinho, saiu em defesa do ser alado e ameaçou os meninos com um festival de choro e o cancelamento de cadernos emprestados como retaliação.

E o passarinho lá. Em cima da cortina, na base. Cabecinha de um lado para o outro. Na lousa, dá-lhe análise sintática. De repente um “piu”. Era o passarinho se manifestando. Novo espanto na classe. Ora, então não sabiam que passarinho piava? Mas uma coisa é saber, outra é presenciar.

O que teria piado o passarinho? O professor sabia falar passarinhês? E daí a explicar que os animais não possuem um sistema linguístico, seria obra para daqui uns cinco anos ainda. “Deve estar espantado com vocês igual vocês estão com ele”, retrucou o professor.

Os minutos de observação foram úteis ao bichinho. Finalmente teve calma para encontrar uma saída. Era a porta, que o professor havia aberto. Como se despedisse da criançada, deu um outro “piu” e fez sua rasante final. Foi-se embora e deve ter escutado o grande “aahhhh” suspirado pelos alunos. Em casa, contariam o episódio para os pais e parentes.

No dia seguinte o mesmo passarinho entrou na mesma classe. Mas não tinha aula: era feriado no calendário escolar.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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