Colunistas

Publicado: Sábado, 1 de agosto de 2009

Funerária Vai com Deus Ltda

Não pedi para atuar neste ramo, que é muito ingrato. Tudo começou com meu avô, 50 anos atrás. Foi um pioneiro: um surto epidêmico de varíola fez várias vítimas na cidade. Até então caixeiro viajante, vovô fixou-se aqui e abriu uma agência funerária. O serviço era inexistente na cidade e logo passou a ser muito requisitado.
 
A princípio tudo era muito simples, mas aos poucos o negócio foi evoluindo. Com o tempo meu pai assumiu a gerência e vovô acabou necessitando ele mesmo dos serviços da própria empresa. Ganhou um caixão branco, com detalhes em madrepérola e forro de cetim. Um de seus últimos desejos foi não ter flores no esquife. Era alérgico e tinha medo de, com um espirro, ressuscitar sete palmos debaixo da terra.
 
Papai deu uma guinada na empresa. Retirou o nome de vovô da fachada (ele deve ter se revirado no túmulo...) e passou a usar o nome fantasia Funerária Vai com Deus Ltda, que permanece até hoje. Muitos criticaram a escolha do novo nome, mas papai justificava dizendo que, já que não há opção contra a morte, o ideal é ir bem acompanhado pelo Pai Celeste.
 
Nas mãos de papai a funerária cresceu a olhos vistos. Ou não vistos, se a ótica for a dos finados clientes. Ele comprou uma antiga fazenda abandonada e obteve alvará da Prefeitura para iniciar um cemitério particular. Em alguns meses todos os lotes tinham sido vendidos. Foi o primeiro cemitério particular da região, um verdadeiro sucesso.
 
Motivo de alegria (para nós da empresa, claro...) foi o dia da inauguração do Cemitério Eternidade Feliz. O cliente que teve a honra de ser o primeiro condômino foi um comerciante aqui da cidade. Compareceram autoridades civis e religiosas, políticas e militares, colunistas sociais e membros da sociedade em geral. Em resumo, foi o evento do mês. Chamamos inclusive a Banda Municipal para tocar o Hino Nacional e proporcionar um fundo musical para o sepultamento.
 
Há cerca de dez anos eu mesmo herdei a Funerária Vai com Deus, bem como a administração do Cemitério Eternidade Feliz. Confesso que este não é o meu ramo predileto. Às vezes, entre um velório e outro, fico pensando se não é pecado ganhar a vida com a morte alheia. Aqui na cidade nenhum colega empresário me deseja “boa sorte nas vendas”, porque afinal ele mesmo poderá ser meu próximo cliente... A parte boa é que, até hoje (e Deus queira que assim permaneça), nenhum defunto reclamou pessoalmente dos nossos serviços.
 
Antes de herdar a funerária eu trabalhava no Instituto Médico Legal, concursado e tudo o mais. Minha função era preparar os corpos depois do exame do legista. Eu os lavava, penteava, maquiava e vestia. Alguém pode dizer que é meio parecido com o que faço na funerária, mas não é. No IML eu gozava do pleno silêncio no ambiente de trabalho. Na funerária tenho que lidar com aquele monte de gente chorando, rezando, fazendo discursos...
 
Como se tratava de um negócio da família, abdiquei do meu emprego público no IML. Afinal, não quero que meu avô ou meu pai venha me puxar o pé de noite. O jeito foi dedicar-me o melhor possível. Hoje temos filiais em cinco cidades da região e enterramos cerca de 600 pessoas por mês. Fabricamos caixões simples e de luxo, com ótimo acabamento. Os produtos são tão bem feitos que os exportamos para todo o país. Graças à internet, já chegamos a vender para Bolívia, Israel e México.
 
Meu grande sucesso como empresário neste ramo veio mesmo com a guerra no Iraque. Com a ajuda de um conhecido meu, do meio militar, consegui fornecer alguns daqueles caixões metálicos nos quais são enterrados os soldados. Passei a exportar e a faturar em dólar. E estou pensando seriamente em abrir minha primeira filial em Buenos Aires.
 
Pensando no futuro, também quero construir um cemitério vertical. Mas estou encontrando uma certa resistência dos clientes durante a venda, principalmente para aqueles que alegam ter medo de altura. Do ramo de crematórios já desisti, porque a maioria das pessoas não quer passar a eternidade em forma de pó, dentro de um potinho. Minha próxima aposta é a inauguração, semana que vem, do primeiro cemitério canino aqui da cidade. Vai se chamar Au-au Babau.
 
Não sei se meu filho desejará herdar o negócio da família. Ele trabalha na área da saúde pública e diz que não aguenta mais ver a morte de perto. Na minha opinião, nosso negócio está com o futuro ameaçado. Essa coisa de células-tronco e regeneração genética vai fazer com que as pessoas vivam muitos anos a mais. Quem sabe até ninguém mais morra, não é mesmo?
 
Enquanto isso não acontece (e eu também não bater as botas), vou tocando a minha empresa. Desejo sinceramente que você não precise, mas caso necessite dos nossos serviços a Funerária Vai com Deus está à sua disposição hoje e sempre, por toda a eternidade.

Comentários

Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

Arquivo