Colunistas

Publicado: Terça-feira, 10 de julho de 2007

Florinda

Logo depois da abolição começaram a chegar os imigrantes italianos.
Na fazenda São Geraldo chegaram várias famílias de imigrantes para trabalhar.
Eram alegres, nas horas de folga, cantavam, dançavam, tocavam violão e sanfona.
Os negros também faziam suas festas e, aos poucos, foram se misturando, fazendo amizade, festando juntos.
Florinda era uma italianinha, loura, de olhos azuis. Tinha fama de ser muito bonita e era mesmo.
Gonçalo, o pai da Florinda era um italiano severo e não queria que as filhas fizessem amizade com os negros.
Mas Florinda e Estefânio, o negro mais negro deste mundo, se apaixonaram.
O pai fez de tudo. Aconselhou, proibiu, castigou, a mãe chorou, mas nada fez com que ela desistisse do namoro.
O Gonçalo foi falar com o patrão, pedir para ele proibir aquele absurdo, mas o Coronel lhe disse:
- O Estefânio não é propriedade minha. Ele é livre de namorar e casar com quem quiser. Eu não posso interferir na sua vida particular.
- Mas eu não quero filha minha casada com negro.
- Então, você que é o pai, proíba. Eu não tenho nada com isso.
- O senhor podia mandar o Estefânio embora...
- Por que faria isso? Ele é um bom serviçal e eu preciso dele.
Gonçalo ficou furioso. Juntou a Florinda e deu-lhe uma surra.
Naquela mesma noite os dois fugiram.
Mais uma vez o Gonçalo foi falar com o Coronel:
- Se o senhor não botar os dois daqui pra fora eu mato eles!
- E vai acabar sua vida em uma cadeia! É isso que você quer?
- Eu me mato! Só para ela ficar com remorso.
- Deixe de falar bobagem. Faça o casamento que é melhor.
- Nunca! Na minha casa ela nunca mais pisa, nem ela nem aquele negro atrevido.
- Você é que sabe...
O Gonçalo espumava de raiva. Pensou em ir embora para não ver nunca mais a filha desobediente e o genro indesejável, mas estava difícil arranjar trabalho e na fazenda ele ganhava seu salário, a mulher também trabalhava e ganhava o dela e até as crianças faziam algum servicinho leve e ganhavam uns trocados,
Resolveu “engolir o sapo”.
 
Um ano depois o Gonçalo, todo babão, andava pela fazenda carregando o Gonçalinho que por ironia do destino não puxou nada da mãe linda e loura, era pretinho feito azeviche.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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