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Publicado: Segunda-feira, 2 de abril de 2012

Flores da minha vida

Depois de longos dias de semi-inconsciência fui, pouco a pouco, tomando conhecimento do que tinha acontecido. Ficara gravemente ferido no desastre e minha esposa falecera na hora.

Eu não fazia ideia de quanto tempo se passara. Às vezes parecia ter sido há alguns momentos, outras vezes pareciam muito distante, outras ainda pensava que tudo tinha sido um sonho, um pesadelo.

Estava muito confuso, mas aos poucos fui me encontrando com a realidade. Estava vivo, sem qualquer sequela, mas estava viúvo.

Essa constatação levou-me primeiro a um estado de choque, depois o desespero.

Meu Deus! Como aquilo pode acontecer?

A enfermeira trouxe-me um calmante que eu tomei e logo adormeci profundamente.

Quando acordei já era outro dia e a enfermeira me cumprimentava sorridente:

— Bom dia? Como está se sentindo? Está melhor?

Só então reparei na moça que cuidara de mim. Muito bonita, risonha e simpática.

A partir desse dia comecei a esperar com impaciência sua passagem pelo meu quarto.

Como eu já estava bem ela passava apenas para trazer os remédios e fazer os exames de rotina.

Eu sabia que a moça dava-me muita atenção porque o meu estado era grave eu precisava recuperar-me não só física como emocionalmente, mas não podia deixar de perceber que sua atenção era mais do que profissional.

Na solidão de meu quarto de hospital, a presença dela era como que uma luz na escuridão e eu ansiava por ela.

Quando soube que ela se chamava Açucena contei-lhe a coincidência. Todas minhas namoradas tinham nomes de flores.

Feinha, pele branca, olhos azuis muito claros e estrábicos, cabelos cor de palha, finos e escassos caindo tristemente sobre os ombros magros, ela toda muito magrinha, a Margarida era uma excelente candidata a Miss Feiura se tal concurso existisse.

Mas eu estava apaixonado pela primeira vez e a via através das lentes do amor como a mais atraente de todas as mulheres.

Namoramos algum tempo, mas depois ela mudou-se para uma cidade distante e o namoro acabou.

Arranjei a segunda namorada, a Hortência, muito diferente da primeira. Uma esplendorosa ruiva de cabelos fartos, grandes olhos verdes e uma beleza incomum. Fogosa, cortejada por muitos rapazes, acabei por perdê-la para um viúvo rico que a cobriu de joias e levou-a ao altar com toda a pompa que ela julgava merecer.

E então, conheci a Rosa que seria minha companheira, meu verdadeiro amor, minha alma gêmea com certeza, tal a afinidade e a atração recíproca que sentimos desde logo um pelo outro.

Namoro tranquilo, pedido de casamento aos pais, aliança na mão direita e finalmente na mão esquerda numa cerimônia formal, tudo de acordo com os bons costumes. Um casamento feliz que tão cedo fora brutalmente acabado.

Contei toda minha história à Açucena e não consegui segurar a emoção ao lembrar do triste fim do nosso amor.
Ela ouviu-me com atenção e tentou dizer umas palavras de conforto.

No dia seguinte quando acordei havia um vasinho a minha cabeceira com uma margarida, uma hortência, uma rosa e... uma açucena.

— Para comemorar a vida. Muito em breve o médico lhe dará alta.

— Obrigado! Você foi muito gentil. Deve ter sido trabalhoso encontrar todas essas flores tão diferentes.

— Nem tanto. Eu fiz isso com muito prazer.

Fiquei intrigado. Por que será que ela incluiu essa açucena?

Adivinhando-me a indagação ela completou meio encabulada:

— Você disse que não conhecia a açucena...

Era muito cedo para qualquer coisa. Eu sofrera um acidente grave, acabava de perder a esposa, estava machucado física e emocionalmente, mas ainda era jovem e as feridas cicatrizam...

Talvez um dia possa continuar esta minha história.
 

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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