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Publicado: Sexta-feira, 6 de julho de 2007

Filosofia da Vaca

Filosofia da Vaca
“Aquela pobre vaquinha indo para o matadouro, tão velha e magra que tem os ossos furando o couro. Parece que ela advinha que caminha para o fim. Se ela pudesse dizer, talvez nos diria assim:

Meu boiadeiro me levando à morte / Dei minha vida para lhe ajudar / Meu leite puro é que matou a fome / De seus filhinhos, que ajudei criar / Os meus filhinhos você levou embora / Uns para o corte e outros no estradão / Puxando carro pelo chão do mundo / De dor, sangrado pelo seu ferrão.

Hoje estou velha, pra mais nada presto / A minha morte só lhe satisfaz / Vivi a vida só lhe dando lucros / Sem o direito de morrer em paz / Quando sua faca atravessar meu peito / E o meu sangue lhe escorrer na mão / Por sua pobre ignorância humana / Meu boiadeiro, lhe darei perdão.

Após a morte, eu serei seus passos / No seu calçado feito com meu couro / Serei o cinto pra enfeitar madames / Serei a bolsa pra guardar seu ouro / Desde o início da humanidade / Quando, em Belém, viram a Divina Luz / O meu calor, na fria manjedoura / Fui eu que um dia aqueci Jesus.
 
Um obrigado eu esperava ouvir agora / Porém, só ouço a chicotada da partida / Meu coração, entristecido, está chorando / A ingratidão de quem tanto ajudei na vida”.

Nascidos no interior de São Paulo, volta e meia nos recordamos das nossas tradições caipiras. É um dos ingredientes dessa grande sopa chamada cultura brasileira. Contos, anedotas, canções nos recordam o gosto do povo do interior pelas coisas do campo, pela vida simples.
 
Alguns devem se lembrar do Trio Parada Dura. É um conjunto musical dos mais importantes da música sertaneja e que fez sucesso com a música “As Andorinhas”, gravada em 1985 (As andorinhas voltaram e eu também voltei, pousar no velho ninho que um dia eu deixei).
 
O trio foi criado pelo cantor, compositor e instrumentista Mangabinha, em 1973. Teve várias formações, porém a do auge da carreira contava também com Barrerito e Benzito. Em 1982 sofreram um acidente de avião que deixou Barrerito paraplégico. O caso deu origem a canções, comoveu os fãs, mas ele teve que deixar o grupo. Seu irmão Parreirito o substituiu.
 
O Trio Parada Dura nunca foi um produto do marketing das gravadoras, embora tenha conseguido 10 discos de ouro e 3 discos de platina. Acabou ficando à margem das duplas sertanejas romantizadas que surgiram nos anos 90. Depois de ter se desfeito em 1992, o trio voltou a se juntar em 1997 para regravar seus sucessos, para alegria dos fãs saudosos.
 
Eles também gravaram muitas outras canções puxando para a irreverência. Algumas letras são mesmo impublicáveis, cheias de trocadilhos e duplos sentidos. Não é o caso da música transcrita acima e que se chama “A Vaquinha”. Até eu, que nunca morei em fazenda, fiquei com o coração apertado quando achei a canção perdida no meu baú de antiguidades musicais.
 
O que nos pode ensinar uma música do Trio Parada Dura que fala sobre uma vaquinha velha? Muita coisa. A mais triste lição que nos passa é a dura realidade da ingratidão humana. Pensemos na vaquinha, que depois de uma vida inteira de servidão, acaba sendo morta. Considerada imprestável após anos de uso, até depois de assassinada irá contribuir, tornando-se matéria-prima para vários objetos. Foi isso o que ganhou ao invés de um “obrigado” e uma aposentadoria tranqüila.
 
Isso me leva a pensar: se até para as vacas a vida parece injusta, quem dirá para nós em nossa “humana ignorância”?
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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