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Publicado: Sábado, 7 de janeiro de 2017

Ex-tilingue

Ex-tilingue
O estilingue sumiu do mapa. Bem como o bodoque, a chiloida, a baladeira, a funda, a atiradeira e demais sinônimos. Justifica-se o desaparecimento. Que chance teria o coitado numa queda de braço com o Xbox, o PS4, os jogos de realidade virtual e sua turma? É claro que não falo das atiradeiras de competição, que parecem uns bólidos, ultramodernas e produzidas com materiais sintéticos. É aquele rustiquinho, da roça mesmo, ou quando muito dos quintais das casas de vila, quase tão extintos quanto o próprio estilingue.
 
Por definição, o estilingue é uma traquitana contraditória. Para um militar em guerra, uma brincadeira de criança. Para um militante da paz, uma arma mortal travestida de brinquedo. Para mim e para você, talvez pairem controvérsias. Mas certamente concordaremos ao admitir que não existe uso politicamente correto ou ambientalmente justificável para um estilingue. Tanto na intenção com que é usado quanto no material necessário para fazer um.
 
Começando da estrutura básica: a forquilha. É preciso serrar um galho de goiabeira, jabuticabeira ou outra eira do pomar para se ter uma bem bacana em mãos, com um "V" simétrico e reforçado. Daí você precisa de pedregulhos, também chamados seixos, como munição. E seixos ou pedregulhos demoram centenas, milhares, quem sabe milhões de anos para ganharem da natureza aqueles contornos arredondados. Porque se a pedrinha não for redonda, já era. O tiro não será certeiro. Depois tem aquele courinho que prende o pedregulho para o disparo. Só se for couro legítimo, subproduto de gado abatido. Caso contrário, durabilidade zero. O menos antiecológico dos insumos seria o conjunto das duas tiras de borracha, que esticadas darão o impulso para a pedrinha zarpar. Ainda assim elas vêm da seringueira, cujo látex poderia muito bem ser destinado a fins mais edificantes.
 
Pronto o estilingue, ele vai servir para quê? De duas uma: arrebentar vidraças ou matar passarinhos. A primeira opção caracteriza vandalismo; a segunda, crueldade animalesca e estúpida interferência na cadeia alimentar. No entanto, sua imagem permanece como algo bucólico, associado à inocência infantil e aos inesquecíveis momentos vividos na fazenda da vovô. Algo que lembra cartilha de alfabetização, calendário de quitanda ou capa de alguma edição antiga de "Caçadas de Pedrinho", do Monteiro Lobato. 
 
Por isso, se alguém, contradizendo minha tese, disser que viu por aí um menino com um estilingue nas mãos ou no bolso, não caia nessa. Com certeza é uma arapuca. Também em extinção, por sinal. 
 
 
 
© Direitos Reservados
Imagem: folhadofazendeiro.com.br
 
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Líricas Bulhufas

Marcelo Sguassábia

Marcelo Sguassábia

Humor, nonsense e sátira. Junte a isso algumas incursões no universo onírico. É esse mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido. Sou redator publicitário e tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas e um jornal impresso.

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