Colunistas

Publicado: Domingo, 5 de outubro de 2008

Eu, Mesário

São 18h do dia 5 de outubro e acabei de chegar em casa. Foi um dia diferente, pois trabalhei como mesário nas eleições municipais. Poderia alegar uma série de justificativas politicamente corretas para tal, já que prestei o trabalho voluntariamente e não na condição de convocado. Porém, meus motivos foram mais pessoais e talvez menos nobres.
 
Tive a curiosidade jornalística de atuar de maneira mais direta nas eleições. Como jamais passou pela minha cabeça a idéia de me candidatar a cargos eletivos, resolvi ser voluntário na mesa eleitoral. “É preciso trabalhar em favor da democracia”, dizia eu aos que questionavam minha decisão. E ria por dentro.
 
Acordei às 6h45. Passei no Mercado Municipal para comprar um café preto e um pastel de queijo. Comendo, caminhei até o Instituto Borges de Artes e Ofícios. Apresentei-me ao Presidente da seção eleitoral e recebi as primeiras orientações. Nada muito complicado. Bastava ter uma boa noção da ordem alfabética, um bom trato com os eleitores que compareceriam e o senso de organização necessário para trabalhar em equipe.
 
Às 8h a urna eletrônica foi ligada e cinco minutos depois as primeiras pessoas chegaram para votar. Não houve tumultos e nem filas, tampouco reclamações. Na seção em que trabalhei, eram 502 os que deveriam comparecer. Até as 17h, quando as urnas foram desligadas, 413 tinham realmente votado. Foram 89 faltantes.
 
Muitos pensam que passar o dia inteiro trabalhando nas eleições seja algo maçante. Depende do modo de encarar a situação. Se eu tivesse a opção de passar o dia todo tomando champagne numa banheira de hidromassagem, certamente ser mesário me pareceria algo insuportável. Porém, como já disse acima, moveu-me a curiosidade jornalística. Além disso, ganhei a sensação de ser socialmente útil. Ganhei também dois dias de folga em meu trabalho, conforme ordena a lei, além de 15 reais para almoçar.
 
Entre os 413 eleitores, muitos conhecidos. Alguns mais, outros menos. Dois ou três amigos de longa data. A relação do mesário com o eleitor é a mesma do comerciante com o freguês. É preciso ser educado e paciente, para orientar a todos. Há o dever de ser assim com todos, não apenas com os mais chegados.
 
Temos que recordar que a prática do voto é ainda recente entre os brasileiros. Faz menos de 20 anos que recomeçamos a exercer o direito de escolher os dirigentes da nação. Assim, muitas pessoas confundem-se ainda, principalmente ao lidar com a urna eletrônica. Essas demoram muito mais, pedem orientação, demoram mesmo. Não há outra alternativa a não ser compreender as dificuldades de um e de outro diante da tecnologia empregada nas eleições.
 
Achei o trabalho tão divertido, que nem almoçar quis. Trabalhei 10 horas seguidas. Mas isso só foi possível porque ganhei mais uma coisa: a companhia dos colegas de seção. Eram pessoas que eu realmente não conhecia e com as quais convivi um dia inteiro. Isso eu também buscava: relacionar-me, conhecer pessoas novas, vivenciar situações diferentes.
 
Foram agradáveis companhias: Roberto, Ditinho e Ana. Havia o fiscal de uma das coligações também, muito discreto. As funcionárias do IBAO também foram muito simpáticas e receptivas, o que certamente contribuiu para o bom ambiente no lugar. Abro um parêntese aqui para afirmar que o Instituto Borges é uma das mais bem cuidadas entidades educacionais de Itu, com seus prédios limpos e bem conservados.
 
Em geral, o clima eleitoral deste ano foi menos agressivo em Itu. Houve muitas certezas e poucas polêmicas. Até houve quem desejasse criar algum tipo de confusão (né, gente?), mas infelizmente foram movidas por um certo desespero de causa injustificado. Os próprios políticos costumam dizer que a política é algo de momento, permeada por paixões ocasionais e momentâneas. Assim sendo, os de bom senso hão de perdoar alguns exageros e a tudo relevar pelo bem da convivência e dos princípios democráticos.
 
Gostei da experiência e a recomendo. Não é “coisa de doido”, como alguns alegam. No mínimo, posso afirmar que é uma boa maneira de ocupar o tempo em um dia especial como a da prática cidadã do voto. Apesar das mazelas do mundo da política, que todos estamos cansados de conhecer, é preciso reconhecer que a democracia ainda é o melhor sistema político alcançado pelo ser humano. É preciso trabalhar por sua melhoria, defendê-lo, realmente ajudá-lo a funcionar.
 
Amém.
Comentários

Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

Arquivo