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Publicado: Terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

Esmola de cerveja

Dias atrás estive numa quermesse. Muitas barracas de comes, bebes e jogos. Batia um bom papo com os amigos quando um sujeito se aproximou, pedindo um gole da minha cerveja. Fiquei tão surpreso que nem soube com reagir. Neguei o pedido e o rapaz insistiu. Neguei novamente e ele foi embora.

Já fui abordado por pessoas pedindo dinheiro, remédios, roupas ou comida. Agora, um estranho abordar alguém pedindo gole de cerveja é novidade... Daqui a pouco alguém chegará ao ponto de querer sair pedindo um pedaço do lanche alheio.

O sujeito em questão era jovem e até mais forte que eu. O que me faz supor que deveria gastar sua força e energia no mercado de trabalho para sustentar a cervejinhas e outras necessidades.

Alguns podem se perguntar: mas qual mercado de trabalho? É uma verdade triste o drama do desemprego. Mas outra triste verdade é que há muita gente acomodada mesmo. Para esses é mais fácil pedir que conquistar, mendigar que trabalhar, beber que planejar.

Felizmente, creio que essa gente seja uma minoria. Não condeno os velhos, os doentes e as crianças que, numa situação de necessidade extrema, são obrigados a pedir ajuda de qualquer maneira. São muitas as injustiças sociais para que possamos apontar o dedo na cara dos outros, fazendo julgamentos.

Muitas vezes a pessoa trabalha a vida inteira, se aposenta com uma mixaria e se vê obrigada a catar latinhas na rua. Crianças com pais desempregados, sem perspectiva alguma, são “treinadas” para pedir esmola nos semáforos. Doentes sem amigos ou parentes, mal atendidos pelos serviços públicos de saúde, lutam pela vida contando com a generosidade dos outros.

Agora, dar ajuda pra marmanjo é outro negócio. Se ele tem saúde e a força da juventude, que use seu tempo para encontrar um meio de sustentar-se. Se um desses pede um prato de comida, vá lá. Mas esmolar golinho de cerveja é a gota d’água. Digo, de cerveja...

É difícil simplesmente posicionar-se contra ou a favor das esmolas. Cada caso é um caso e não os conhecemos todos. Nosso povo é generoso e gosta de ajudar a quem precisa. Às vezes uma ajuda é a alavanca que faltava para reerguer a vida de uma pessoa. Em outras a mesma ajuda é o arrimo que sustenta a acomodação de quem só quer vadiar. Creio que devemos pensar nisso quando alguém vier nos pedir alguma coisa para então decidir, no mesmo momento, o que fazer.

Essa é a minha visão de mundo. E a sua?

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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