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Publicado: Sexta-feira, 3 de abril de 2009

Eric Clapton

Sempre gostei muito de ler e trata-se de um hábito indispensável. Por conta disso, é raro não me encontrar com um livro nas mãos ou dentro da maleta. Leio no ônibus, no banheiro, na fila do banco e em casa nos tempos livres. Leio inclusive almoçando, jantando ou tomando um café.
 
Mesmo assim, já faz alguns anos que não compro um livro sequer: ganho de presente ou então me emprestam. O conhecido Maneco do Tonilu, com sua enorme boa-vontade, é um dos que mais me emprestaram livros nos últimos anos. Graças a ele tive ótimas leituras no passado recente, o que agradeço satisfeito.
 
Fiquei surpreso com um empréstimo recente: a autobiografia do músico inglês Eric Clapton, publicada em 400 páginas pela Editora Planeta. Já conhecia algumas de suas músicas, sobretudo as do álbum “Unplugged” (Acústico), que é o trabalho mais vendido em toda a sua carreira. Mas uma coisa é conhecer a música e outra é descobrir o homem por trás dela.
 
Hoje reconhecido como um dos músicos mais talentosos de sua geração, Clapton nasceu no interior da Inglaterra, de mãe solteira e nunca conheceu o pai. Foi criado pelos avós e só na puberdade descobriu que sua verdadeira mãe era quem até então considerava ser sua irmã mais velha.
 
Descobriu seu dom pela música depois de tentar enquadrar-se no sistema tradicional de ensino, o que nunca deu certo. Após tentativas com desenho e pintura, aprendeu a tocar guitarra e encontrou-se. A música tornou-se para ele a razão de sua vida.
 
No livro ele relata essas descobertas, seus dramas e ansiedades de juventude. Descreve também o início da carreira, as viagens e aventuras. Faz um retrato fiel dos anos ’60 e ’70, com seus prós e contras. Narra sua amizade com figuras como os Beatles, Mick Jagger e astros do blues. Hoje com mais de 60 anos de idade, ele afirma que não se envergonha de seu passado, das coisas boas e ruins que fez. O resultado é perceber que se trata de um relato honesto.
 
O que me fez ficar surpreso foram as narrativas de seu envolvimento com álcool e drogas. São passagens chocantes. Foi viciado em heroína, cocaína, maconha e álcool, consumindo doses gigantescas disso tudo ao mesmo tempo. Correu risco de morte inúmeras vezes e safou-se. Tocou em centenas de shows completamente debilitado, passou várias vezes por hospitais e teve duas severas internações.
 
Somente aos 42 anos é que resolveu largar dos vícios. Conheceu o programa dos 12 Passos, dos Alcoólicos Anônimos e levou-o à sério. A partir de então, sua vida entrou nos eixos. Apaixonou-se a ponto de casar e hoje tem quatro filhas. Além disso, usou parte de seus recursos materiais para fundar uma instituição que auxilia dependentes químicos, inspirado por suas dolorosas experiências enquanto pessoa em recuperação.
 
Descobri que Eric Clapton não é apenas um bom músico. Descobri que tem uma história de vida impressionante, que vale mesmo a pena conhecer. Faz a gente ter esperanças de que o ser humano pode sim estar acima de seus próprios vícios, sabendo percorrer o árduo caminho em busca da serenidade e da paz.
 
Todos passam dificuldades na vida. O mundo do show business tem suas armadilhas. Os dependentes químicos passam por dramas terríveis. Mas para tudo há um caminho de volta. Inspirar-se nas experiências de nossos semelhantes é uma ótima maneira de compreender os outros e a nós mesmos.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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