Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Entre a Karla e a Rosinha

Afonso pertencia a uma grande e rica família de fazendeiros. Seu pai, homem forte e dominador criou os filhos voltados para os interesses das fazendas.

Assim como seus irmãos, Afonso fez o curso primário na cidadezinha próxima, só que, enquanto os outros, ainda muito jovens começaram a dedicar-se aos trabalhos agrícolas, ele quis continuar os estudos. Fazer um curso superior.

O pai, a princípio não deu força à sua idéia.

- Bobagem! Você já aprendeu a ler, escrever e fazer contas. Para ser um fazendeiro não precisa de mais do que isso.

- Mas eu quero fazer uma faculdade. Ser um doutor.

- E você pensa que com isso vai ganhar mais do que com o gado?

- Talvez, não. Mas é o que quero. Ser um advogado!

O pai riu:

- Advogado! Pois sim! Vai ser um doutor, mas garanto que vai ser mais pobre do que seus irmãos.

Mas o pai acabou concordando e com o tempo começou até a sentir orgulho do filho "doutor". Afonso teve muita regalia. O pai pagava todas as suas despesas sem reclamar e lhe dava uma gorda mesada que lhe permitia além de estudar, freqüentar lugares caros, se divertir.

E foi então que ele conheceu a Karla, uma moça muito bonita, sofisticada e moderna. Começaram a namorar e ele não demorou muito para se apaixonar por ela.

Mas ele tinha uma namoradinha, lá na sua cidade, a Rosinha, desde os tempos de adolescente. Sempre pensou que um dia se casaria com ela. Gostava muito dela, mas não era uma paixão como a que sentia agora pela Karla.

Afonso e Rosinha, durante o ano letivo correspondiam-se, ansiosos pelas férias quando, então, matavam a saudade.

Quando conheceu a Karla, entretanto, ele começou a fazer comparações e achar que ela era muito simplória, que suas cartas, embora cheias de carinho eram mal escritas, com erros de português.

A Karla era muito culta, fazia doutorado numa faculdade importante, era muito mais compatível com a sua posição de agora, um futuro advogado.

Logo, porém, Afonso começou a sentir falta da vida tranqüila da fazenda. A cidade grande que a princípio o encantou agora o cansava e ele resolveu terminar o curso, receber o seu diploma, o seu título, mas depois dedicar-se ao trabalho do campo que era do que gostava mesmo, concluiu.

O pai ficou feliz quando ele lhe disse isso e prontificou-se a ajudá-lo a começar.

Karla o incentivava. Dizia que adoraria morar no campo e que seria muito feliz se casasse e fosse morar numa fazenda.

-“Casar com a Karla?”
 
Afonso agora pensava seriamente nisso. Não tinha dúvida de que era o que queria, mas tinha a Rosinha...

Ele não achava jeito de desfazer o namoro.

E, assim, ele foi levando essa situação até a formatura.
 
Agora precisava decidir-se. Queria noivar, marcar o casamento, mas, antes disso precisava falar com o pai. Sabia que ele ia protestar. Aprovava o seu namoro com a Rosinha, filha de um amigo seu e ia ser difícil fazê-lo aceitar uma moça como a Karla, tão diferente da sua família. E tudo o que ele não queria era desavença com o pai.
 
Depois tinha que falar com a Rosinha. Como iria dizer-lhe que estava apaixonado por outra e que estava rompendo o namoro? Não imaginava como seria sua reação. Será que ia chorar ou brigar? Ele gostava dela, não queria fazê-la sofrer.

Na verdade, estava dividido sem saber como agir.

Mas tinha que superar sua insegurança e fazer o que tinha que ser feito.

Dizem que os advogados têm muita lábia. Aprendem a defender o indefensável e procurar justificativa para o que não é justo, mas ele com o seu diploma novinho na mão, não sabia como sair-se da encrenca na qual se tinha metido.
 
Quando falou com o pai a reação foi exatamente a que ele esperava:
 
- Como? Acabar um namoro de tantos anos, assim, sem motivo?

- Não é sem motivo, pai! Eu gosto de outra! Você acha certo que me case com a Rosinha para ser infeliz e fazê-la infeliz também?
 
- E a minha situação? Com que cara vou olhar para o Jesuíno depois de você ter enganado a filha dele desse jeito?
 
- Você não tem nada com isso!
 
O pai levantou-se e fitou-o com a face congestionada. Afonso teve a impressão de que ele ia esbofeteá-lo:
 
- Que disse?
 
- Desculpe! Eu quis dizer que você não tem culpa de nada. O culpado fui eu, ou melhor, ninguém teve culpa, pois não se manda no coração.
 
- Hummmm!

E agora tinha que enfrentar a Rosinha, começou titubeando:
 
- Eu não queria magoá-la, mas preciso lhe contar uma coisa...
 
- Não precisa dizer mais nada. Você está gostando de outra e quer terminar o namoro, não é?
 
Afonso admira-se:

- Como? Você já sabia?

- Desconfiava! De uns tempos para cá venho notando que já não é o mesmo. Tudo bem! Eu também acho que não mereço um doutor. Vou arranjar um namorado do meu nível.
Afonso sobressalta-se. Não era essa a reação que esperava. Imaginar a Rosinha com outro namorado encheu-o de ciúme, mas, é claro que ele não podia pretender que ela passasse a vida toda sozinha enquanto el
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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