Colunistas

Publicado: Sábado, 20 de agosto de 2011

Educação, televisão e alienação

Educação, televisão e alienação
Cuidado: você está sendo alienado!!

A incapacidade de indignação induz o homem a viver a vida, assim, como quem não quer nada com nada. “Há um ponto em que a tolerância significa indiferença. Quem tolera tudo é porque não se importa com nada”, diz Rubem Alves em uma de suas crônicas.  

O que pode explicar essa capacidade, quase um fenômeno do comportamento humano, de olhar o mundo com tanto desdém e descaso?

A ausência da educação moral, reflexiva e intencionada da ética é um ponto importante e determinante na compreensão do “vale tudo nesta vida em que nada vale”.  

E é nesse espaço vazio que a televisão encontra poder e força.  Não há como negar que a “telinha” invade nossos dias com absoluta influência. Até os mais críticos e conscientes admitem assistir televisão nos momentos de relaxamento e inércia mental. Não, não sou contra a televisão, podem ficar tranqüilos. Sinto-me apenas desafiada a refletir sobre os poderes, sobretudo os ideológicos, quando o alvo é frágil e indefeso: as nossas crianças. 

Pesquisas recentes mostram que os pequenos passam, em média, três horas por dia assistindo a programas de TV. Em muitas casas, onde a jornada de trabalho dos pais é integral, esse tempo supera o tempo que os pais passam com os filhos. 

Por isso me incomodo. A preocupação não é a televisão, mas a ausência do mediador e guardião dos valores morais e éticos num período importante da formação humana. A educação demanda tempo, cuidado, reflexão e intencionalidade. E esse processo não é responsabilidade isolada das escolas. Gosto de um ditado africano que diz que “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. 

Precisamos cuidar da educação além das escolas. A cidade educa; a família, o comerciante e a televisão também. Somos todos educandos e educadores ao mesmo tempo; mestres e aprendizes. Não estamos prontos: não nascemos prontos.

A escola deve assumir o compromisso com a aprendizagem, garantir os conhecimentos básicos, condição primeira para a formação da cidadania. Mas a sociedade toda precisa assumir o compromisso com a educação de valores, zelar pelo desenvolvimento salutar das crianças. E isso tem que ser discutido, encarado, refletido em campanhas sociais. Não podemos achar que tudo é natural e que o mundo é assim mesmo...

Antônio Faundez - calma: não é o Fagundes da Globo -,  filósofo chileno, nos facilita a compreensão quando diz  que “o poder de domínio de uma ideologia reside basicamente no fato de que ela se encarna na ação cotidiana”. Ou seja, a inexorabilidade de um fenômeno se explica quando o homem já não é mais capaz de perceber o que presta do que não presta, o que é bom do que não é bom,  o que serve do que não serve.

A nossa televisão não presta; é um escândalo: nela tudo pode!! O sucesso do programa Big Brother, por exemplo, comprovado pelo alto índice de audiência, é um exemplo típico do quanto um povo é capaz de se alienar. Que bom seria se o dinheiro arrecadado com as ligações telefônicas da participação popular fosse destinado aos projetos educacionais do país. Pelo menos haveria uma justificativa plausível para o tempo perdido com “tamanha bobeira”.

Mas como esse desejo não tem a mínima possibilidade de se concretizar; penso eu que talvez as palavras possam chegar mais longe... Abrir a mente e alertar, alguns pelo menos, sobre o perigo da alienação social, sobretudo para nossas crianças: frágeis e indefesas.  

Comentários

Conversas Entrelinhas

Mércia Falcini

Mércia Falcini

Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Membro Fundador da Academia Saltense de Letras e colunista do site Itu.com.br.

Arquivo

14 de março de 2016

A corrida aos cinquenta

1 de outubro de 2015

Um filho gay: dores e amores

8 de dezembro de 2014

Refazendo as verdades

6 de março de 2014

A dor da perda

14 de fevereiro de 2014

A Pata do Elefante