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Publicado: Domingo, 9 de julho de 2017

Edson Aparecido de Moraes (In Memoriam)

Crédito: Arquivo Pessoal / Facebook Edson Aparecido de Moraes (In Memoriam)
O Mano Véio (Edson, à direita) e eu: xeque-mate da vida.

Inacreditibelievable.

Foi a primeira palavra que lembrei ao saber do falecimento do meu irmão Edson, logo após missa de abertura da Semana Missionária dos Seminaristas na cidade de Santana de Parnaíba (SP).

O neologismo anglicano era uma brincadeira nossa: a fusão das palavras "inacreditável" e "unbelievable" (inacreditável). Um jogo de palavras inexplicável do ponto de vista lingüístico, mas que fazia todo o sentido nas nossas conversas.

Nascemos no mesmo dia, com exatos 10 anos de diferença. Fomos vizinhos na infância. Edson literalmente pegou-me no colo. Depois tornou-se para mim um modelo, de tudo. Um cara descolado, sem medo de ser feliz, ousado e batalhador. Carro, faculdade, aventuras juvenis: tudo isso ele teve. Quando criança eu pensava: "Quero ser igual a ele!". Uma inspiração vinda do irmão mais velho que nunca tive, mas que Deus providenciou na minha criação.

Só depois de adultos passamos a conversar sobre coisas sérias. Até então eu era um moleque. Principalmente após minha decisão de ingressar no Seminário, para tornar-me padre, é que nossos papos ganharam mais substância. Foi dos primeiros a me apoiar nessa decisão. Não concordava com tudo a respeito da Igreja, nem sobre as minhas idéias. Mas sempre respeitou e, principalmente, acreditou na minha vocação.

Nas férias, pausando a lida com a faculdade, era rotina passar ao menos uma noite com Edson, na casa dele. A gente comia, bebia, conversava, ria, filosofava. Uma vez, poucos sabem, até rezamos. Foi uma oração curta, mas foi. Prece de ação de graças. Edson era, ninguém nega, um cara grato pelas coisas que a vida lhe proporcionou.

Devotíssimo de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida, sempre fez suas preces. Procurava ir à missa, tinha um coração generoso e caridoso que muitos conheciam. Defeitos? Claro que os teve! E quem não os tem? Mas esses, os verdadeiros amigos e também Deus sempre souberam relevar.

De tantas recordações que poderia compartilhar, a primeira que me vem à mente data de 23 anos atrás. Numa sexta-feira de 1994, sem nada pra fazer e morando na Rua Dr. Silva Castro, na Vila Nova, resolvi descer ao final da Rua Capitão Fleming, onde Edson morava...

Tocando a campainha, fui atendido pelo próprio. Estava acompanhado pelo também querido Odilon (vulgo Bob). Estavam conversando na cozinha, com um tabuleiro de xadrez sobre a mesa. Papo vai, papo vem, resolveram ensinar o tradicional jogo para mim. E ali ficamos. Uma hora, duas horas, três horas. Até que fui aprendendo. Quando dei por mim, percebi o sol nascente: tinha se passado a madrugada! E foi assim que aprendi a jogar xadrez, num curso intensivo com meu irmão Edson.

Já vivi o suficiente para perceber que esta vida terrena é mesmo assim: volta e meia, nos aplica um xeque-mate. A partida repentina, verdadeira má surpresa, do meu Mano Véio (como eu apelidava o Edson) foi um desses xeque-mates da vida...

Rezamos por ele, recordaremos sempre dele. Porém, acima de tudo, guardaremos dele essa imagem: em torno do Edson tudo era festa e sorriso! Causos, piadas, anedotas, relatos de aventuras, tudo isso fazia parte dele. E justo agora, no desfecho final, deixar tudo sem graça? Jamais! Nunca que o Edson aprovaria algo assim.

O que procuro fazer, e que tenho a ousadia de propor a tantos quantos amam e admiram meu mano Edson, é que, apesar da dor e da tristeza dessa abrupta separação, tenhamos a capacidade de manter o espírito altivo e feliz. Ter o Edson como parte de nossas vidas foi uma honra e um privilégio, motivo de alegria indubitável.

Por isso, celebremos! Não à morte, que jamais tem vitória. Celebremos a vida! A vida que meu Mano Véio sempre procurou viver bem! Mas sobretudo a vida que nunca acaba e que jamais tem fim: a vida eterna. Sem dúvida iremos nos reencontrar.

A morte é um hiato, uma pausa, uma fronteira. E a nossa história não termina assim. Um dia nos reencontraremos. Então, entre tantas saudações de tantas pessoas que partiram antes de nós, ouviremos ao longe um "Fiuuuulhhho! Inacreditibelievable!". Será o Edson a nos recepcionar no céu. E ali não haverá mais lágrimas. Só alegria.

Dou meu testemunho: estou certo disso como 2 e 2 são quatro!

Vá em paz, meu irmão amado! Apressado como sempre, vá na nossa frente! Você com sua super moto. Eu na minha Salacleta. Mas espera aí por nós, que vamos chegar! Continuamos te amando muitíssimo! A morte, Mano, é só um detalhe: ninguém morre de verdade enquanto permanece vivo na nossa mente e em nosso coração.

Deus nos console e ampare pra suportar tamanha ausência. Mas, se como disse o poeta, "saudade é o amor que fica", estamos certos de que muitos amamos ao Edson com todas as forças do nosso coração.

Até breve, Fiulho.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista e professor, iniciou sua carreira em 1996. É colunista do Itu.com.br desde 2005 e membro da Academia Ituana de Letras desde 2011. É seminarista na Diocese de Jundiaí, atualmente cursando Teologia.

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