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Publicado: Segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dr. Sampaio quer casar

Dr. Sampaio era um solteirão inveterado.

Todas as manhãs acordava com a campainha e ia, ainda de pijama, abrir a porta para Jovita, a empregada.

Enquanto a mocinha passava o café ele preparava-se para mais um dia de trabalho no seu consultório veterinário.

Por volta do meio dia Jovita passava pelo consultório e lhe entregava a chave da casa. Estava encerrado o seu trabalho daquele dia.

- Deixei uma surpresa para o senhor.

Sampaio agradecia.

Ela fora contratada para limpar a casa e lavar a roupa, mas sempre deixava um agrado para o patrão há quem muito estimava um bolo de fubá, biscoitos de polvilho ou arroz doce, guloseimas que ela sabia o quanto o agradavam.

Já beirando os cinqüenta anos, os amigos de juventude casados há muito tempo, com filhos crescidos, alguns até vovôs, continuavam amigos, mas não eram mais companheiros de noitadas e o Sampaio, de repente, tomou consciência de que já não era o mesmo.

Começou a sentir-se muito só na sua condição de homem livre, independente, sem amarras, a achar falta de uma companheira com quem dividir os seus bons e maus momentos e filhos que lhe perpetuassem o nome e quebrassem a rotina. E foi então que a possibilidade de vir a casar-se começou a se esboçar.

Mas, casar-se com quem?

Ultimamente andava muito caseiro, pouco frequentava a sociedade e as mulheres com quem se relacionava não eram o tipo de mulher que ele desejava para esposa.
O antigo galã que poderia ter escolhido uma namorada entre as mais belas e prendadas garotas, agora estava sentindo-se tímido, desajeitado.

Onde encontrar uma mulher dentro dos moldes que criara? Idade entre trinta e quarenta anos, bonita, bem educada, culta e, sobretudo, de moral ilibada.

E, foi então que teve uma ideia.

Foi até a Agência do Correio e alugou uma caixa postal.

- Eu quero o mais absoluto segredo. Ninguém deve saber que a caixa postal 108 me pertence.

- Não se preocupe, doutor, tudo que se refere a nossos usuários é mantido em sigilo. Não podemos dar qualquer informação. Está no regulamento.

Quem assim dizia era a Adalgiza, uma moça sorridente que inspirou logo a simpatia do Sampaio.

Saindo do Correio, passou pela redação do jornal local e mandou colocar um anuncio: "Homem de cinqüenta anos, solteiro, culto, boa situação financeira, procura moça de trinta a quarenta anos para compromisso sério.

Correspondência para caixa postal 108.

No dia seguinte, quando desceu para o café, Jovita estava com o jornal na mão e exclamou assim que o viu:

- Veja só, doutor, um cara procurando namorada!

Fazendo um esforço tremendo para não demonstrar maior interesse, respondeu: - É?

- Cinquenta anos, bem colocado, querendo casar... Eu acho que vou responder esse anuncio, o que o senhor acha? Será que daria certo?

- Não sei. Só experimentando.

O diálogo com a Jovina o incomodou, sentiu-se meio ridículo, mas, já que tinha inventado essa história, aguardaria agora o resultado.

Mais tarde, no consultório, Cássio, um amigo que veio trazer o cachorro para uma consulta, perguntou:

- Você viu o anuncio no jornal do cinquentão procurando mulher para se casar?

Fingindo indiferença, respondeu:

- Vi, sim. A Jovita disse que vai responder o anuncio. Imagine!

Clarita, sua auxiliar, com seus quarenta e muitos anos, gorda, cabelos pintados e boca pintada de vermelho-violeta aparteou:

- Eu prefiro morrer solteira a aceitar um marido tão idiota.

- Viu Sampaio, no que dá querer resistir aos encantos femininos? Acaba-se matando cachorro a grito.

O veterinário sentia-se cada vez pior.

Por que insistiam tanto nesse assunto?

Já começava a arrepender-se de sua iniciativa, antes mesmo de começarem a chegar as cartas das interessadas.

Como se estivesse fazendo algo condenável olhou para os lados para certificar-se de que não havia nenhum conhecido por ali e dirigiu-se, ansioso, a Caixa Postal 108 abrindo-a com a mão trêmula.

Havia uma carta que ele enfiou às pressas no bolso.

Já ia sair quando a Adalgiza o chamou:

- E, então, doutor, já começaram a chegar as cartas?

Ela tinha lido o anuncio no jornal e já sabia por que ele alugara a caixa e pedira segredo com tanto empenho.

Estava divertindo-se com o caso e disposta a acompanhar o desenrolar dos fatos. Sampaio chegou até o guichê e, sem saber bem por que, se abriu com ela.

Falou de seu interesse em encontrar uma noiva através das cartas.

Afinal ela era a única pessoaque estava sabendo de tudo.

- O que você acha de minha idéia? Será que vai dar certo?

- Pode ser, mas você pode esperar muita brincadeira, muita carta de mulheres encalhadas, (sabe-se lá por que) e interesseiras à procura de um bom partido.

- Não tem importância. Se no meio de tudo isso houver uma carta de alguém interessante ficarei satisfeito. Afinal eu preciso só de “uma” namorada.

- Você vai ver só quantas propostas vai receber. O difícil vai ser escolher uma dentre tantas.

- Tomara!

- Vou torcer por você

- Obrigado

A primeira carta decepcionou o Sampaio, era de uma mulher desquitada de 54 anos que garantia aparentar muito menos.

Mandou uma resposta breve, agradecendo e dizendo que não interessava.

Nos dias subseqüentes a correspondência aumentou tanto que ele desistiu de responder uma a uma.

Como Adalgisa previra, havia muita brincadeira e, mesmo as que lhe pareciam mais sérias causavam certo temor de estar sendo enganado.

Todos os dias comentava com a Adalgisa os últimos lances e os dois divertiam-se com as histórias que apareciam.

-Você ainda não respondeu para ninguém?

- Não. Quero escolher bem.

- Pois eu acho que devia responder todas. Depois você vai selecionando as melhores...

- Que é isso? Você pensa que não tenho nada mais para fazer?

Riram.

- Sabe que eu achei a sua ideia, no mínimo, divertida? Acho que também vou alugar uma caixa para mim... Agora eram os dois a trocar confidências, comentar as cartas mais interessantes e caçoar um do outro.

- Você ainda vai acabar casando com aquela cabeleireira meio gordinha. Tive a impressão de que ela mexeu com você.

- Nada disso. Vou responder a carta daquela que disse que recebeu uma herança. Pelo menos é rica.

- De repente a herança é a vigésima parte de uma casa que vale dez mil!

- Você devia escrever para o Elesbão. Ele disse que é rico.

- Ele deve estar mentindo. Vá ver que é um “serviços gerais” desempregado.

E o tempo ia passando, as cartas chegando e os dois solteir&oti

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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