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Publicado: Segunda-feira, 18 de junho de 2007

Dorotéa

Belarmino relembra coisas acontecidas há muito tempo.
Ele mesmo, o Buscapé, tinha um amor secreto, a nega Dorotéa, linda de danar, que também era escrava de dentro e estava sempre por perto dele.
O Coronel exigia muito respeito entre os escravos, mas, quando algum deles queria casar-se, podia escolher uma neguinha e vir falar com ele.
Quase sempre ele aprovava e no fim do mês quando o padre vinha celebrar a missa na capela, realizava o casamento, ele abençoava, desejava que tivessem muitos filhos (claro, o interesse era dele, escravos valiam dinheiro).
Depois de casados tinham um quartinho só deles e quando os filhos nasciam, eram batizados no dia da missa e os pais podiam escolher o nome que tinha que ser aprovado por ele, também.
Mas, porque o amor de Buscapé era secreto?
Porque, na senzala, diziam a boca pequena (muito pequena mesmo) que o Sinhô tinha um caso com a Dorotéa.
Quase todos os coronéis tinham uma escrava favorita que recebia atenções especiais enquanto estivessem interessando e depois eram devolvidas à senzala ou vendidas.
Dorotéa tinha privilégios na casa grande. Era dengosa, pouco trabalhava e estava sempre mais na sala do que na cozinha.
Buscapé esperava pacientemente que o Sinhô se cansasse dela para pedi-la em casamento.
Mas um dia o Dito veio todo satisfeito falar com ele:
- Vou me casar! Já falei com o Sinhô e ele deixou que eu me casasse com a Dorotéa!
- Com a Dorotéa?! Mas, dizem que ela e o Sinhô...
- Tudo mentira! Falação de nego desocupado! Imagine se o Sinhô é dessas coisas!
Buscapé teve vontade de esbofetear-se. Por que tinha que acreditar em fuxicos? Por que não teve coragem de pedir a Dorotéa?
Mas, então já era tarde. O Dito e a Dorotéa se casaram no dia da missa e foram para o quartinho privativo.
Buscapé nunca conseguiu esquecer a Dorotéa.
Às vezes o Sinhô o provocava:
- Você não quer casar-se? Escolha uma negrinha e vamos fazer a festa!
- Eu vou arranjar...
Mas não arranjava nada.
O tempo passou e lá estava ele terminando seus dias na solidão.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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