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Publicado: Segunda-feira, 27 de abril de 2009

Dia dos Namorados

Maysa nem lembrava mais há quanto tempo tinha em seu quarto um oratório com a imagem de Santo Antônio. Todos os anos, no dia da sua festa ela lhe oferecia um presentinho, uma toalhinha nova, uma flor ou uma vela perfumada e fazia um pedido: pedia para que ele lhe arranjasse um namorado, pra valer. Pedia, ainda, que ele lhe desse um sinal de que sua prece foi ouvida. Que ela ganhasse uma flor, naquele dia.
 
Quando era muito jovem fazia exigências: queria um rapaz moreno de olhos verdes (achava lindo os olhos claros com a pele morena), que fosse muito rico, inteligente, estudado e que tivesse, é claro, as qualidades básicas: fosse carinhoso, fiel, generoso, etc.etc.etc. Ah! Importante! Tinha que ser São-Paulino!
 
Com o passar do tempo foi reduzindo os requisitos. Não precisava ter olhos verdes (há tantos olhos escuros, bonitos!)... Não tinha que ser muito rico, bastava que tivesse um bom emprego, casa própria... Bem, a casa podia ser alugada, mesmo... Se ele não torcesse pelo São Paulo, paciência! Por um bom marido ela aguentava até um corintiano.
 
Os anos foram passando levando consigo a juventude e as ilusões, mas ela continuava fiel à sua devoção pelo Santo e não desistia de lhe fazer pedidos.
 
Maysa estava há um tempão em uma fila de banco que parecia não ter fim. De repente, sentiu-se mal. A vista escureceu e ela cambaleou. Quando viu já estava sentada em uma cadeira e um simpático rapaz perguntava se ela estava melhor.
Meio zonza, ainda, perguntou:
 
- O que foi que aconteceu?
- Você cambaleou, mas eu consegui evitar que caísse e a trouxe até aqui.
- Estou muito gripada. Deve ter sido uma queda de pressão. Que mico!
- Essas coisas acontecem. Já está chegando a minha vez. Quer que faça seus pagamentos? Assim você descansa mais um pouco.
 
Ela lhe entrega os carnês, cheques, dinheiro, sem qualquer relutância.
Depois pensa:
- Que rapaz gentil!
 
Recrimina-se:
- Não viaje, Maysa! Você quase caiu em cima dele. Ele só tinha mesmo que ajudá-la a sentar-se. Foi fazer seus pagamentos? Grande coisa! Ele tinha mesmo que ir ao caixa...
 
Ele retorna com os seus documentos e convida:
- Vamos tomar um café?
 
Atravessam a rua, ela pensando:
- Que loucura! Não devia ter aceitado...
 
Esperava que fosse um rápido cafezinho tomado no balcão, mas ele levou as xícaras para uma mesa e, dali a pouco os dois estavam conversando animadamente. Ele contou que era funcionário público, mas estava em férias e ela perguntou:
- Não vai viajar? Que vai fazer nas férias?
 
Ainda não sei. Não me programei. Eu vou sair de férias na semana que vem. Vou viajar para o nordeste com uma excursão.
- Sempre tive vontade de viajar para o nordeste. Será que ainda há vagas na sua excursão?
 - Acho que sim. Sabe como são essas coisas, sempre dão um jeitinho de levar mais um.
 
Trocam telefones, endereços, informações.
Na televisão, uma garota propaganda insiste em sugerir o presente para o dia dos namorados.
 
Ele pergunta:
- Será que você vai ganhar um celular de seu namorado? Parece que é o presente do momento.
- Não. Eu não tenho namorado.
- Eu também estou só. Se quiser um telefone vou ter que comprar.
 
Riem.
Ela olha o relógio e assusta-se:
- Nossa! Dei uma escapadinha do serviço para ir ao banco e acabei ficando a tarde toda fora.
 
Saem juntos.
- Na porta um menino com uma cesta de flores meio murchas oferece:
- Moço! Compra uma flor para a namorada!
- Ele escolhe uma rosa vermelha e dá para ela.
 
À noite Maysa coloca a rosa no vasinho diante do Santo Antônio e diz a ele:
- Foi o sinal, não foi?
- Ela jura que o Santinho piscou maliciosamente para ela.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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