Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Desventuras do Dinorah

O garoto chamava-se Dinorah.
 
Seus problemas com o nome começaram quando foi à escola e a professora que fez a distribuição dos alunos por classes femininas e masculinas o colocou no meio das meninas.
 
Verificado o engano ele foi transferido para outra classe onde os colegas já estavam enturmados e chegou meio deslocado.
Quando contou o seu nome, os meninos acharam engraçado e um deles disse:
 
- A empregada lá de casa se chama Dinorah.
 
Outro acrescentou rindo:
 
- Dinorah é nome de mulher!
 
Todos riram e ele chorou.
 
Em casa falou com a mãe. Disse que queria mudar de nome.
 
- Não dá para mudar. O seu nome está no registro.
 
- Mas e se eu apagar bem apagadinho o rah e deixar só Dino?
 
- Não pode! Documento rasurado não vale.
 
- Mas daí você tira outro com outro nome.
 
- Não pode! O nome fica escrito no livro do cartório quando a gente registra uma criança, não pode mudar.
 
- Mas, por que você quer mudar seu nome? É um nome tão bonito.
 
- Porque os meninos disseram que é nome de mulher.
 
- Esses meninos são muito tolos. Dinorah é nome de homem. Tem até um artista com esse nome.
 
Os colegas voltaram a amolar o Dinorah, chamando-o de mulherzinha e ele diz:
 
- Vocês são uns bobos. Dinorah é nome de homem, sim. Tem até um artista chamado Dinorah!
 
Francisco, o maiorzinho e mais sabido dá uma gargalhada e retruca:
 
- O artista Dinorah é boiola! Dinorah é seu nome de guerra!
Todos riram dizendo que ele também devia ser boiola.
 
Dinorah não entendeu nada na hora, mas não levou muito tempo para descobrir do que os colegas estavam falando e começou a odiá-los.
 
Em casa, todos os dias, contava para os pais o que se passava e pedia para darem um jeito de mudar o seu nome ou tirá-lo da escola.
 
Tirar da escola estava fora de cogitação e o pai acabou procurando um advogado para ver se conseguia mudar o nome dele para Dino, pois, afinal, quase todo mundo o chamava assim.
 
O advogado tomou as medidas cabíveis, mas o juiz entendeu que não havia motivo para a mudança. O nome constava da lista de nomes próprios para ambos os sexos, não tinha nenhum significado pejorativo e não se enquadrava, portanto, em nenhuma situação que justificasse o pedido. E indeferiu.
 
Dinorah foi ficando cada vez mais desesperado com a situação. Os colegas mexiam com ele e achavam graça quando ele ficava bravo e ameaçava bater em todo mundo.
Até que um dia ele exagerou e machucou gravemente um colega com um canivete que levara de casa, escondido.
 
A diretora chamou a mãe dele para conversarem e acabou aconselhando-a a mudá-lo de escola. Sugeriu que o transferisse para uma escola dirigida por uma amiga dela. Prontificou-se a conversar com a diretora e acertar para que só usassem o seu nome nos documentos. Para os professores e alunos ele seria Dino.
 
Assim foi feito e o Dino fez o seu curso sem maiores aborrecimentos, mas continuava a detestar o seu nome e a pensar num jeito de trocá-lo.
 
Anos mais tarde, trabalhando em outra cidade, apresentando-se sempre como Dino, ele foi levando a sua vida até o dia que conheceu o Otacílio.
 
Os dois tornaram-se muito amigos e um dia, em conversa, ele falou do seu problema com o próprio nome e o outro disse:
 
- Por que você não arranja um documento falso?
 
- Oh! Não! Isso, não! Eu não teria coragem!
 
- Por que não? Você não é bandido, não vai usar isso para fazer nada errado. Que mal pode haver em tirar três letras do nome, já que isso é tão importante pra você?
 
- Não! Nem pensar.
 
Mas pensou. Ou melhor, não pensou em outra coisa nos próximos dias e acabou voltando a falar no assunto com o Otacílio:
 
- Você sabe como a gente pode obter o documento falso?
 
- Olhe, eu tenho um cunhado que é malandro pra caramba. Conhece tudo que é boca de lixo. Mas é um cara muito simpático. Se você falar ele, garanto que ele descola o documento pra você.
 
E lá se foi o Dino atrás do cunhado do Otacílio e seus amigos trambiqueiros. Já nem pensava se o que estava fazendo era correto e nem avaliava os riscos que corria.
 
Mas não teve sorte. A polícia deu uma batida no local onde eram emitidos os documentos falsos e levou todos que se encontravam por lá, presos.
Lá se foi o Dino no meio dos bandidos para a Delegacia.
 
O delegado, no entanto, tendo em vista seus bons antecedentes e ouvindo sua patética história acabou liberando-o com o simples pagamento de algumas cestas básicas e a promessa de que desistia de vez de mudar de nome.
 
Depois dessa, Dino nunca mais tentou nada para mudar sua identidade, mas, sempre que podia usava só o apelido, Dino.
 
E o tempo foi passando...
 
Dino conheceu Amélia. Apaixonou-se por ela. Casaram-se.
 
Quando souberam que o seu primeiro filho seria homem, começaram a pensar no nome que lhe dariam.
 
Dino disse a Amélia que podia escolher o nome que quisesse que ele concordava.
 
- Eu gostaria que ele tivesse o seu nome. Acho tão bonito. Dinorah!
 
- Nããããããõoo!!! 

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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