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Publicado: Quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Deseducação Alimentícia

Nunca gostei de comer. Não chegava a ser um caso crônico, como o personagem Dudu das revistinhas do Maurício de Sousa. Me recordo da primeira vez em que recusei comer. Aos quatro anos de idade, minha mãe insistia em servir diariamente pratos e mais pratos de sopa, dos mais variados tipos e cores. Certa noite, enquanto ela me dava de comer (imagine uma criança comendo sopa sozinha! Que sujeira!), aproveitei a pausa que ela fez para atender uma visita e jurei para mim mesmo que nunca mais comeria sopa enquanto fosse vivo.
Permaneço vivo e a promessa mantém-se firme. Sopas e assemelhados jamais adentraram meu organismo desde então. Graças a Deus, que me fez brasileiro, acostumei-me com o prato nacional, o genuíno arroz-com-feijão e ovo. Troco qualquer banquete por essa combinação perfeita. Enquanto morava com minha mãe, fiquei anos e anos com esse cardápio. Era ótimo.
Nos tempos da faculdade deixamos a alimentação um pouco de lado. Todos sabem que é uma correria maluca. O simples fato de sair do trabalho e ir para a aula nos consome um tempo enorme. Às vezes era necessário escolher o que fazer nesse meio tempo: jantar ou tomar banho? Se por causa da mesma correria já tivéssemos ficado sem almoço, a escolha por jantar era mais que necessária. Mas principalmente no verão, a vontade de tomar uma ducha era maior do que de comer.
Dentro do ônibus ou dentro da classe, o jeito era beliscar alguma coisa para enganar o estômago, esse ser estranho que ninguém sabe direito onde fica, mas que se escuta muito bem quando começa a roncar involuntariamente. Balas, salgadinhos e biscoitos são comuns nessas horas. Fora os genéricos: guloseimas e petiscos de todos os tipos possíveis e imagináveis. Particularmente, nos anos de faculdade eu mantive por quase três anos o nada saudável hábito de ingerir seguidos pacotes de bolachas recheadas. Minha favorita era a “Mais-Mais” sabor morango, que tinha o dobro de recheio de suas concorrentes. As taxas de gordura vegetal hidrogenada no meu sangue devem ter ficado altíssimas.
Fiquei sabendo essa semana que um rapaz inglês, com apenas 20 anos de idade, morreu por culpa de seus hábitos alimentares. Por anos a fio a única coisa que ingeria eram batatas fritas, torradas com manteiga. De vez em quando ele enjoava e mudava seu cardápio, comendo feijão em lata. Graças a essa dieta ele conseguiu, inteiramente grátis, uma cirrose hepática e uma hepatite auto-imune, doença em que o sistema imunológico ataca as células do próprio fígado. Havia a opção de um transplante, mas o rapaz preferiu seguir um tratamento mais moderado, a base de remédios. Porém, como manteve sua deseducação alimentícia, o fígado resolveu parar de funcionar de vez.
De uns tempos para cá, passei a me preocupar mais com a alimentação. Passei a comer com mais qualidade e de modo mais correto. Aprendi a comer saladas e a não trocar a refeição por um lanche qualquer. Aprendi a tomar leite, a evitar muito sal, açúcar e comidas muito gordurosas. Passei a fazer exercícios mais leves e a adotar um cardápio mais leve nas refeições noturnas. Só não passei a tomar sopa, por causa daquela minha promessa.Há um ditado afirmando que um homem é aquilo que ele come. É verdade. Mantendo uma dieta saudável, ganha-se em qualidade de vida. Aumenta-se a sensação de bem-estar e a saúde fica em dia. Não precisa ser nutricionista para saber disso. É uma questão de bom senso.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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