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Publicado: Segunda-feira, 12 de março de 2012

Derrik e eu

Meus pais sempre foram contra o nosso namoro por o Derrik ser um estrangeiro que estava na nossa cidade, temporariamente, prestando serviço para uma empresa lá da sua terra. Achavam que o namoro não tinha futuro e que eu estava perdendo meu tempo com ele.

Mas nós nos apaixonamos e logo estávamos casados.

Havia muita diferença cultural entre nós, mas convivíamos com isso da melhor forma possível, algumas vezes cedendo, outras reagindo com bom humor, simplesmente aceitando ou nos desentendendo e brigando.

Até aqui nada demais. Qual o casal que não tem lá suas diferenças? Suas brigas? Dizem até que isso é o tempero do amor. Não sei se é bem assim, mas isto pouco importa.

Minha família nunca aceitou bem o meu marido.

Minha mãe achava que ele não se comportava bem à mesa, que não cumprimentava direito as pessoas.

Meu pai dizia que não tinha jeito de conversar com ele, pois não entendia de política nem se interessava por futebol.

Minha irmã achava que ele era um chato.

Meus irmãos caçoavam da sua pronuncia e seu vocabulário, às vezes um tanto estranho, e até a empregada reclamava que ele era enjoado para comer. Nada disso nos abalava. Nós nos amávamos, estávamos felizes e isso era tudo o que nos importava.

Mas a coisa pegou fogo mesmo quando a mãe dele resolveu vir passar um mês na nossa casa.

A mulher não sabia nossa língua nem eu a dela. Derrik se punha de interprete, mas ele também tinha dificuldade com o português. Tentamos nos comunicar em inglês e daí é que ninguém entendeu mais nada mesmo. Resultado, os dois enrolavam na sua língua e eu ficava de fora tentando adivinhar o que falavam.

Nunca tive um mês tão longo em minha vida. Os dias não acabavam mais e eu não sabia o que fazer para preenchê-los.

Meu marido ia trabalhar e a Dona Adda ficava o tempo todo no meu pé, querendo saber o que eu estava fazendo, se comunicando por gestos que eu não entendia. Eu tentava ensinar-lhe algumas palavras na louca esperança de tornar nosso relacionamento mais divertido, mas qual, ela repetia na hora, mas dali a pouco esquecia.

Eu compreendia muito bem. Tive anos de aulas de inglês e não consigo falar nada.

Mas a surpresa mesmo veio alguns dias antes dela ir embora. Meu marido me comunicou que ia com ela porque tinha alguns problemas para resolver na sede da empresa.

Eu não podia ir, assim de ultima hora, pois nem passaporte tinha.

Mais uns dias e a terrível surpresa. Derrik não voltaria mais. Ia continuar trabalhando lá na sua terra e... ia casar-se com uma antiga namorada.

E aqui fica a minha pergunta:

A gente NUNCA deve ouvir a voz do coração? Deve-se SEMPRE acatar a opinião dos nossos familiares?
 

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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