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Publicado: Sexta-feira, 29 de maio de 2009

Depressão na Carne e no Espírito

A depressão é uma realidade na vida humana e todos passam por ela, com maior ou menor intensidade, com maior ou menor duração. Em 2004 experimentei-a. Perdi o ânimo aos poucos, em todos os sentidos. O dia começava e já tinha vontade que ele acabasse. Nem mesmo a fé me adiantava. Eu simplesmente olhava no espelho e não me reconhecia. Só sabia perguntar a Deus a razão de passar por aquilo.
 
Quando quase fiz uma enorme bobagem, desistindo de tudo, foi que procurei ajuda. Eu sabia que não estava na minha normalidade. Foi Dom Amaury quem praticamente me pegou pela mão para que eu não caísse. Ele percebeu meu estado e, como éramos muito ligados, conversamos a respeito.
 
Todos se recordam que ele não era homem apenas de palavras. Colocou-me em seu Peugeot e levou-me a seu próprio neurologista, algo que eu jamais teria feito por conta própria. Constatou-se uma depressão de nível médio.
 
O médico receitou-me alguns medicamentos, que Dom Amaury também fez questão de pagar sem fazer desconto algum em meus vencimentos. Ele já era emérito, mas ainda trabalhávamos juntos.
 
Comecei o tratamento, acreditando que "Deus também cura através dos remédios". E foi o que aconteceu. Aos poucos, tudo mudou. Mudei hábitos e revi certos valores de então. Melhorei e voltei a me reconhecer no espelho. A cura definitiva veio ao assistir uma pregação do Padre Léo, numa das raras vezes em que eu via a TV Canção Nova, já que não tenho o hábito de assistir televisão.
 
Ali o sacerdote dizia que o medo, a angústia, a depressão, são ferramentas do inimigo para nos imobilizar. E revelou-me um trecho bíblico que até então desconhecia. Não lembro mais a passagem, mas dizia que "a tristeza já matou a muitos".
 
Foram seis longos meses de angústia e sofrimento interior. Hoje sei que Deus me deu essa provação para que eu compreendesse como funciona a depressão dentro da gente. É algo insidioso mesmo, muito cruel. Passei a ter não só uma visão "clínica" do assunto, mas também "espiritual". Também passei a ter mais caridade com os que sofrem desse mal, colocando-me à disposição para conversar e rezando mais por eles.
 
Naquele tempo, passei por um período turbulento. Papai tinha morrido; meu noivado tinha acabado; descobri o câncer que levaria Dom Amaury embora, entre outras coisas. Não foi à toa que minha cabeça ficou desregulada. Porém, da vida a gente só leva o que se aprende. Desde então, tive momentos esporádicos de desânimo e abatimento. Mas não sou severo quanto a isso, pois sei que ninguém pode ser 100% alegre o tempo todo. Tem dias que é uma tristeza mesmo, acontece que agora não me deixo contaminar por ela.
 
Ao acordar, posso ser triste ou alegre. Sempre escolho a segunda opção. Se por acaso não acordo bem, simplesmente vivo a tristeza normalmente. No outro dia, ela vai-se embora deixando outra lição. Prometi a mim mesmo que nunca mais deixaria as angústias e os medos dessa vida me dominarem.
 
Em minhas orações, agradeço a Deus pela experiência, mas rezo também para que não me faça passar por isso novamente. Tornei-me uma pessoa mais positiva e vigilante, procurando ainda servir como agente de consolo caso alguém com depressão se coloque diante de mim. Enfim, cheguei a uma conclusão paradoxal: para aprender a ser feliz é preciso aprender também a ser triste. E assim aprendemos a dar valor ao que realmente importa.
 
Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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