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Publicado: Sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Depois da Tropa

Acabo de assistir, após alguns meses de relutância, ao filme “Tropa de Elite”. Relutei não por desapreço ao cinema nacional. Ao contrário, temos conseguido ótimas produções nessa área nos últimos anos. Relutei mais como uma tentativa de permanecer à margem da polêmica que envolve o já citado filme, ciente de que certas coisas no Brasil infelizmente talvez nunca mudarão.
 
Nós brasileiros, apesar de conhecermos tão bem as mazelas que nos assolam, ainda somos capazes de ficar chocados. Somos informados pela imprensa ou pela conversa informal do cotidiano. Violência, tráfico de drogas, crime, corrupção e morte. Todas essas coisas estão a um palmo dos nossos narizes, porém fingimos fingir que não as enxergamos. Quando alguém resolve colocar um desses temas como estória central de um filme, ficamos indignados e perplexos. É como se estivéssemos ouvindo falar disso pela primeira vez.
 
A polêmica em torno de “Tropa do Elite” foi grande. Vozes levantaram-se contra e a favor do filme, com todos os argumentos possíveis. Pretendia esperar a poeira abaixar para ver a obra e tirar minhas próprias conclusões, isentas de qualquer idéia que não fosse apenas a minha. O que concluí foi o seguinte: não dá para ficar passivo diante do filme, como se fosse apenas mais uma história qualquer.
 
Afirmam seus produtores que os fatos ali narrados têm como base a vida real. Não dá para negar. Há anos escutam-se rumores sobre tudo o que se passa nos bastidores das forças públicas de segurança, desde as Forças Armadas, passando pelas polícias Civil e Militar, além das forças especiais como o Batalhão de Operações Especiais. Problemas como corrupção ou abuso de poder fazem parte desta realidade.
 
Mas que realidade? A dos filmes e novelas? Não. Da nossa. Essas coisas acontecem no dia a dia, aqui também em nossa cidade e em muitas outras pelo Brasil afora. É triste, mas não dá para tapar o sol com a peneira. O problema da segurança pública e das instituições que a formam é caso para décadas de debate, até que se chegue a um consenso.
 
“Cidade de Deus” mostrou a favela de forma romantizada e moderna. “Tropa de Elite” mostra a favela da perspectiva dos policiais, muito mais crua e realista. Muitos podem ter simpatizando com Acerola e Laranjinha, do primeiro filme. Mas garanto que ninguém se atreveria a residir numa favela carioca como eles. Da mesma forma, muitos viraram fãs do Capitão Nascimento, que manda matar bandidos e colocar “na conta do Papa”, porém duvido que alguém deseje encontrar com ele de madrugada, ao voltar de carro para casa depois de um compromisso qualquer.
 
Um dos muitos pensamentos que me ocorreram ao assistir “Tropa de Elite” foi: a quem nossas crianças irão admirar? O favelado pobre e sem oportunidade, que trabalha para o tráfico por “falta de escolha”? Ou o policial honesto e honrado, porém desumano a ponto de tratar bandidos como animais a serem abatidos? É essa a imagem de combatente do crime que a sociedade irá repassar para a futura geração?
 
Parece que tudo está invertido. Não existe mais a divisão clássica que aprendemos na infância, da polícia contra o bandido. Hoje os bandidos brigam com a policia entre eles mesmos, divididos que estão em inúmeras facções. Hoje há também inúmeros bandidos infiltrados na polícia, manchando o nome da corporação. Hoje há policial honesto lutando contra policial corrupto, numa tarefa ingrata de não deixar o sistema todo descambar de vez.
 
Aos que acompanharam a narrativa do Capitão Nascimento durante as quase duas horas de filme, fica apenas o consolo de que realmente “Tropa de Elite” abriu os olhos de muita gente, alargando horizontes. Ninguém descobriu a pólvora, mas deixar claro que são os filhinhos mimados das classes média e alta os que sustentam o narcotráfico, tocou numa ferida que muitos papais e mamães evitam a qualquer custo.
 
São problemas com os quais o povo brasileiro tem que conviver, não se sabe ainda por quanto tempo. O importante é não deixar o debate acontecer em vão, mas fazer a nossa parte para que disso tudo resultem efetivamente ações que garantam uma mudança nessa situação. De certo modo, temos que fazer como os membros do BOPE: armados de argumentos e idéias, subir o morro das nossas mazelas e combater o que está errado em nosso país.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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