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Publicado: Segunda-feira, 20 de junho de 2011

De chapéu na mão

Os Simões, atores amadores muito conhecidos na cidade, pois já tinham apresentado várias peças teatrais de sua autoria no Teatro Municipal, gentilmente cedido pelo Prefeito como incentivo às artes, resolveu fazer um curta-metragem para ser exibido em um festival cinematográfico que estava sendo anunciado.

O projeto era audacioso, não tinham experiência nenhuma, mas, isto não era o pior, pois experiência se adquire fazendo e refazendo, errando e corrigindo até acertar, o pior era que não tinham dinheiro e sem ele nada se faz.

Tinham que arranjar um patrocínio, mas onde?

Os pais, seus maiores admiradores, não aprovavam a ideia, achavam que eles estavam sonhando muito alto, que estavam perdendo tempo de estudar e, o pior de tudo, não tinham dinheiro, ou não queriam dar.

A única pessoa bem aquinhoada e que poderia ajudá-los era o seu Astrogildo, o banqueiro, mas, tinha fama de ser difícil de abrir a mão. Para convencê-lo a patrocinar a obra era preciso arranjar uma boa argumentação. Se fossem pedir, simplesmente ele por certo negaria.

E, foi então que um dos meninos teve uma ideia luminosa. O banqueiro tinha um filho especial que vivia muito isolado, ia muito mal à escola e os colegas simplesmente o ignoravam, pois bem, eles iam convidar o Mateus para participar do grupo e se o motivassem, talvez conseguissem dobrar-lhe o pai.

Plano perfeito com um senão. A trama já estava pronta, o elenco completo, o que eles iam fazer com o Mateus? Iam ter que arranjar um papel pra ele, enfiá-lo de qualquer jeito na estória. Ele era imprevisível, podia abandoná-los de uma hora para outra e deixá-los em má situação, mas tinha pai rico que daria qualquer coisa para vê-lo realizado. Valia a pena experimentar.

Mateus chegou à casa radiante:

▬Pai! Fui convidado para trabalhar no cinema. Vou ser ator!

▬Como assim?

▬Os Simões estão fazendo um filme e me convidaram para participar.

▬Ah! Que bom!

Cada novidade que aparecia referente ao Mateus ele se enchia de esperança. Quem sabe agora ele vai encontrar-se!

A toque de caixa os meninos introduziram um mordomo na história e escreveram as falas do Mateus.

Mateus decorou seu texto com uma rapidez incrível e surpreendeu os colegas com o seu desempenho. O mordomo tornou-se um ponto alto na história e embora fosse um papel secundário ele o desempenhava com tanta graça que se tornou o toque humorístico da peça.

O Seu Astrogildo a pretexto de acompanhar o filho ficava rodeando os meninos, dando palpites, visivelmente interessado e, embora fosse proibido assistir os ensaios e não aceitassem palpites de terceiros, tinham que abrir exceção para o pai do Mateus, pois precisavam amansá-lo para a “facada”.

Antes que eles criassem coragem para abordá-lo ele perguntou:

▬Como é que vocês pretendem custear esse projeto? Vocês sabem que ficará caro.

▬Estamos pensando em pedir um patrocínio.

▬Ah! Vai ser difícil conseguir patrocínio, por que vocês não pensam em algum jeito de ganhar esse dinheiro?

▬Não sei o que poderíamos fazer...

▬Façam uma apresentação e cobrem a entrada. Olhem que todas as vezes que se apresentaram o teatro lotou

▬Lotou porque era de graça...

▬Imagine! Quem vai deixar de ir vê-los só para não pagar R$ 20,00?

Gostaram da ideia. Introduziu em uma das peças um papel para o Mateus, dessa vez um mendigo com cara de bobo.

Foi um sucesso. O teatro lotou e o Mateus fez o seu mendigo com tanta graça que foi aplaudido de pé. Entusiasmado, desceu à plateia e passou o chapéu pedindo ajuda para a concretização do filme. Não houve quem não colaborasse e com o dinheiro arrecadado começaram as gravações.

Como era de se esperar encontraram muitas dificuldades, muitos imprevistos, muitas despesas inesperadas e os meninos faziam rifas, vendiam pitzas, pediam colaboração de uns e de outros, mas o dinheiro nunca era suficiente.

▬O nosso grupo devia chamar-se “De Chapéu na Mão”, disse o Mateus.

▬Não acho boa a ideia. Parece que estamos sempre pedindo.

▬E não estamos? Além disso, não se tira o chapéu só para pedir. A gente tira também para agradecer.

Não é que o Mateus não é tão bobo como a gente pensava?

Acabaram lançando uma última cartada:

▬Pois é Seu Astrogildo, chegamos à conclusão de que não vamos conseguir o dinheiro suficiente... Vamos desistir.

O sovina olhou para o filho que fazia esforço para não chorar e disse:

▬Está bem! O Banco vai patrocinar a sua curta.

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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