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Publicado: Quinta-feira, 10 de março de 2005

De cabeça erguida

Dia desses, andando pelas ruas de nossa cidade um conhecido me parou. Interrompendo a minha caminhada, colocou as duas mãos em meus ombros e disse: “Não ande encurvado, arrume essa postura!”. E corrigiu-me. Em seguida, colocando a mão no meu queixo, ordenou: “Erga essa cabeça! Não onde olhando para o chão... Olhe sempre para a frente!”. Essa cena me deixou espantado. Primeiro por causa do inusitado. Era algo que simplesmente não esperava. Depois, porque nem havia percebido o modo como estava caminhando...

Se não fosse uma pessoa conscientemente tranqüila, poderia pensar que estava olhando para baixo por causa de algum peso na consciência. Mas não é o meu caso. Comecei a refletir naquele mesmo momento, tentando descobrir o porquê de minha postura cansada.

Dizem que a vida é como rapadura. É doce, mas não é mole. Em meio a tantas coisas bonitas, de tantos mistérios agradáveis que ela nos apresenta, por vezes acontecem conosco fatos que não entendemos. É o tal lado negativo do viver, afinal nada é perfeito.

Todos estamos sujeitos aos momentos ruins da vida. Quando eles se somam, têm o maléfico poder de nos desorientar. Esquecemos quem somos e do que somos feitos. Esquecemos os nossos sonhos, deixamos tudo para trás. Olhamos apenas para os problemas. Desanimados, ficamos cansados da luta diária pela felicidade. Deixamos de olhar para a frente e cedemos ao peso dos descontentamentos, fixando nosso olhar no chão.

A vida é um milagre. E dentro desse grande mistério há oportunidades de redenção e redescoberta. O trecho de um livro, uma mensagem de internet, a palavra de um conhecido, o conselho de um amigo, tudo pode transformar-se em chance para reavaliarmos a nossa postura diante do mundo. Foi o que aconteceu comigo.

Depois daquele dia, deixei de caminha olhando para baixo, atitude automática tomada pelo meu inconsciente e que nem mesmo havia percebido. Se a vida trás momentos bons e ruins, tenho que encará-los de frente, de cabeça erguida. Não são os meus problemas que devem me deixar cansado. Eu é que devo cansar os meus problemas, insistindo com a esperança de que mais para a frente tudo se resolverá.

Infelizmente só temos uma vida para aprender e praticar tudo isso. E há quem desperdice a sua sem nunca pensar nessas coisas. Em verdade, a vida é muito simples de ser vivida. Nas horas de alegria basta sorrir, ser feliz e partilhar esse entusiasmo com o maior número de pessoas. Na hora da tristeza basta chorar, usar a infelicidade para refletir e buscar consolo naqueles que nos cercam.

Aprendi mais uma lição. Posso sorrir ou chorar, mas tem que ser sempre de cabeça erguida.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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