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Publicado: Segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Da bondade e da gratidão: do retorno à realidade!

Crédito: Album de família Da bondade e da gratidão: do retorno à realidade!
Que eles aprendam a apreciar, também, o gosto dos frutos.

Dedico este artigo a todos aqueles que, como eu, acreditam na possibilidade de ver uma “flor nascer do impossível chão”, sem se importarem se é terrível demais vencer guerras e mais guerras por um pouco de paz”.

 

“Usamos de todas as artimanhas, malhação, emagrecimento, operações das mais diversas, tingimentos e fingimentos, mas não saímos do quadrado! Assim, “nos enquadramos” em uma Sociedade que se esqueceu como Humana, que se esqueceu como reflexo de um ser maior, bondoso, incrivelmente gentil, incrivelmente amoroso, eterno em sua sabedoria.” (SSM)

 

Tenho falado aqui sobre a amizade, da forma que acredito nela; Tenho falado aqui das formas de amor, da maneira que as vejo; Tenho falado sobre o amor pelos filhos, sobre as pedras e a beleza do caminho.

Tenho me debruçado, aqui, em temas ligados ao afeto, à compreensão entre os seres humanos, à compreensão do que deveria ser real, mas não o é. 

Por ser um sonhador, e por sonhar sonhos impossíveis, tenho, desde tenra idade, tentado plantar nos mais diferentes tipos de solo, tenho semeado em campos dos mais variados, e, invariavelmente, tenho me decepcionado, não tenho conseguido ver “nascer a flor no impossível chão”.

Eu acreditei e acredito no amor verdadeiro, na amizade verdadeira, na educação para o humano, reflexo do divino.  Acreditei e acredito na gratidão, não na material, mas no sorriso de agradecimento, no obrigado com os olhos brilhando, no abraço fraterno sem nada ser dito... Na visita surpresa a um amigo.

Com o artigo “Poço das Ariranhas“  tentei mostrar que “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”.

Acreditei, e acredito, de verdade, na possiblidade de ver o campo florir, na possiblidade de colher frutos no verão. 

Para que isso aconteça não me importei, e não me importo, de passar o frio do inverno no campo, enterrando sementes em chão molhado; Não me importei, e não me importo, de colher folhas caídas do outono, desde que possa sentir o perfume das flores da primavera, que trarão os frutos na estação seguinte.

Mas... Por alguma razão, por alguma razão que não consigo explicar (ou talvêz até consiga, mas não queira), na hora de colher os frutos não os encontro onde deixei, onde pensei que estariam. Não os encontro!!

Alguém passou antes e os levou... Sem tê-los plantado!

São Lucas, no famoso livro “Médico de Homens e de Almas”, tem uma discussão com Deus por este motivo, por este mesmo motivo;  João Valjean, personagem histórica de Victor Hugo, faz o mesmo questionamento, de uma forma diferente, mas o faz;  Ivan Lins, em uma de suas mais belas canções, pede que os filhos, ao colherem os frutos,  digam o gosto para ele.

Passamos a valorizar a casca, não o interior; passamos a nos deter no contentor, não no conteúdo;  passamos a comprar pacotes, não presentes;  passamos a levar para casa o discurso, não o foco da questão;  passamos a comprar o livro pela capa, não pelo escritor ou pelo que escreve;  passamos, enfim, a ficar no supérfluo, não nos aprofundando no espírito da questão, na alma da pessoa que nos fala.

O carro do ano, a viagem dos sonhos, os “amigos” das baladas, o apartamento na praia, a roupa de “griffe”, a conta bancária, o cartão, foram ganhando espaço em nossas vidas em detrimento ao “buquê” de flores colhidas no quintal, ao café na cama, ao jantar em casa à luz de velas (brancas mesmo), ao abrir a porta do carro para a companheira, para o companheiro, ao passeio de mãos dadas, ao sorvete na praça, ao passeio no Ibirapuera com os filhos e com os pais, à poesia, que tanto nos diz à alma, à missa aos domingos, à conversa despretensiosa entre amigos, sem tempo para terminar...

Enfim, o que era para ser complemento passou a ser o principal, e o principal ficou esquecido em um canto de armário, cheio de poeira e teias de aranha, pedindo, clamando, por limpeza e arrumação, voltando, assim, as coisas aos devidos lugares.

Vivo também a boa vida, sonho também o bom sonho, amo também o bom amar, mas tudo a seu tempo. A vida é construída de realidade, de estudo, de trabalho, de “jogo duro”, de responsabilidade, de honra e de gratidão, não de fantasia!

Sim, a vida é construída de honra e de gratidão!   O que vejo à  minha volta é exatamente o contrário. 

A honra passou a ser o supérfluo e a gratidão deu lugar ao material. 

Um presentinho basta, para substituir um afeto, isso quando existe o presentinho; A honra deu lugar à covardia, à aceitação do contrário, à aceitação da desonestidade, à aceitação da agressão, à aceitação da própria maldade em si.

As pessoas maldosas, em seu sentido pleno, são bajuladas, são visitadas, são festejadas. As pessoas dignas, as pessoas que deixam de si próprias para se dedicar à construção de um mundo melhor, para si mesmas, e para os outros, são tidas como “poetas”, como “sonhadores”, estão fora do mundo...Não precisam de afeto!

E estão mesmo!  O mundo que eu sonhei, e que sonho, não é este,  é um mundo bem melhor, mais digno, mais amigo, mais próximo, que recompense a bondade e coloque a maldade no seu devido lugar...

Eugênio Mussak , autor de “Metacompetência”,  afirma que os “poetas” são aqueles que acreditam na felicidade, que acreditam que podem promover a felicidade para si mesmos e para os que estão à sua volta. 

Eu também acredito! 

Mas continuarei à espera do gosto dos frutos, à espera do perfume da primavera, à espera de um novo verão, com mais luz e mais calor humano. Continuarei acreditando que um dia ainda sentirei o gosto real de um fruto chamado “gratidão”, e conhecerei seu perfume..

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