Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 13 de abril de 2009

Culpado ou Inocente?

Tudo começou quando o Raul chegou em casa, eufórico, numa moto que acabara de comprar.
 
Ruth, a esposa, surpreendeu-se:
- Você comprou essa moto?!
 
Comprar uma moto era um velho sonho do Raul, mas estavam esperando uma oportunidade, algum negócio que desse para ele fazer com o pouco dinheiro que tinha.
- Fiz um excelente negócio! O cara precisava de dinheiro, parece que estava com problema de doença em casa, e vendeu por uma bagatela.
 
Ruth não gostou muito. Sempre ficava preocupada com os “excelentes” negócios que Raul fazia, mas.. Tudo bem! Ele estava feliz e isto era o que importava.
 
Poucos dias depois, Raul havia estacionado e, quanto retornou, viu o rapaz que lhe tinha vendido a moto aproximando-se muito assustado:
- Acabo de ser assaltado! O bandido levou meu carro e todo o meu dinheiro. Não tenho nem como voltar para casa. Que coisa! Sobe ai na garupa que eu levo você pra casa.
 
Percorridos alguns quarteirões, foram alcançados e detidos pela polícia. Os policiais agarraram os dois, algemaram e levaram para a Delegacia, acusando-os de terem cometido um latrocínio.
 
Raul ficou perplexo. Em vão tentou proclamar sua inocência. O outro, realmente, havia matado um homem para roubar. Ele foi flagrado dando fuga para o bandido e não tinha como defender-se.
 
Além de tudo, constataram que a sua moto tinha sido roubada alguns dias antes. Ninguém acreditou que ele não conhecia o outro e não tinha nada a ver com os seus crimes. E dava para acreditar? Raul acabou sendo condenado a vinte anos de cadeia por latrocínio.
 
Quando Ruth soube do ocorrido, no primeiro momento, achou que devia haver um engano. Ela não podia acreditar que o marido fosse um ladrão e um assassino. Mas, diante das evidências, acabou acreditando e ficando profundamente decepcionada com ele.
 
E agora? Que lhe restava? Esperar vinte anos? Quase uma vida inteira! Ficou muito triste, chorou muito, mas, teve que enxugar rapidamente as lágrimas e tratar de arranjar um emprego, trabalhar para pagar as contas e acabar de criar os filhos, pois agora eles só tinham a ela para cuidar deles.
 
Foi visitar o marido uma única vez. O lugar sórdido, a proximidade de marginais, a grosseria dos funcionários, a humilhação, o constrangimento foram demais para ela. Disse logo a ele que não voltaria. Poderiam corresponder-se e se ele precisasse de alguma coisa podia pedir que ela mandaria.
 
Ele entendeu sua posição. Não tinha gostado mesmo de vê-la misturada ao magote de mulheres de presos, desrespeitada e humilhada. Resignou-se a perdê-la para sempre. A princípio, Ruth achou melhor não contar nada para os filhos, dizer que o Papai estava trabalhando em outra cidade, muito longe. Assim ela ganhava tempo para resolver como daria a noticia a eles, naturalmente, caramelando a pílula (haja açúcar para esse caramelo!)
 
Mas, as coisas precipitaram-se. As crianças começaram a ser apontadas como filhos de bandido, sempre que surgia algum problema na escola ou algum desentendimento com os amiguinhos.
 
Ruth conscientizou-se de que não adiantava esconder. Todo mundo já sabia e eles tinham que conviver com isso. Quando tentou matriculá-los em uma escola tradicional da cidade, foi recusada com a desculpa de que não havia vagas. Ela sabia que era mentira, podia ter feito uma denúncia, mas, achou melhor não provocar mais aborrecimentos.
 
Passada a primeira fase de tristeza imensa, diante das dificuldades que enfrentava e, principalmente, das humilhações sofridas pelas crianças, uma revolta muito grande foi tomando conta dela chegando ao ponto de quase odiá-lo.
 
Nos primeiros tempos, ela lhe escrevia longas cartas. Contava dos filhos, da família, dos amigos, de tudo que acontecia na cidade e oferecia sempre “se precisar de alguma coisa.”
 
Ele nunca pediu nada. Suas cartas eram lacônicas. Dizia que não tinha nada para contar. Não manifestava qualquer interesse pelo que ela contava Parecia ter ficado insensível e impenetrável, como se tivesse se transformado em uma pedra, incapaz de sentir qualquer emoção.
 
Com o tempo, essas missivas foram espaçando, até que se resumiram às datas festivas, Natal, Páscoa, Aniversário, Casamento dos filhos, Nascimento do primeiro neto, missivas estas, que ele já nem respondia mais.
 
Nos dias de visita ele era obrigado a passar o dia fora da cela para que seus companheiros pudessem receber suas mulheres, esposas, namoradas ou amigas para as “visitas íntimas”.
 
Não era norma do presídio, mas era a lei dos bandidos, e, uma coisa ele aprendeu rapidinho “com bandido não se brinca”.
 
Assim, passava as longas tardes domingueiras, sozinho, sem nada para fazer, só pensando... Pensar era uma das poucas coisas que ainda lhe eram permitidas.
 
O tempo passou. Passa sempre, indiferente aos conflitos humanos. Não se detém para que possamos aprisionar um momento feliz, nem se apressa para nos libertar de um sofrimento.
 
Chegou o dia da libertação. Pena cumprida! Acabara de pagar a dívida que não contraíra! Quem o ressarciria por isso? Qual o poderoso da Terra que poderia restituir-lhe os melhores anos de sua vida desperdiçados no nada?
 
Os portões foram abertos para ele sair. Ruth o esperava. Por um momento os dois se defrontaram como dois estranhos. Aquele homem prematuramente envelhecido, magro, triste, olhar inexpressivo, não tinha nada a ver com o belo rapaz, alegre e entusiasmado que ela amara tanto, com quem convivera doze anos e compartilhara tantos momentos felizes.
 
Ela estava bem cuidada, mas, não conseguia disfarçar as marcas do sofrimento. Seu sorriso não era
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Maith

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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