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Publicado: Sexta-feira, 17 de junho de 2016

Crônica de Um Menino

Crédito: Internet Crônica de Um Menino
O que reserva o futuro para os meninos e as meninas do Brasil?

Desde que se conhecia por gente a rotina era aquela: sair da escola e passar a tarde no pátio daquele grande supermercado. Precisava levar algum dinheiro para casa. Esperava os fregueses e oferecia-se para carregar as sacolas compras. Idosos e as mulheres eram seu público. Na mochila trazia o material escolar e um agasalho.

O moço achou estranho aquele menino ali, empurrando os carrinhos. Tinha no máximo 12 anos. Não poderia ser funcionário. Assim é a lei: criança não pode trabalhar, tem que brincar. Mas brincadeira de criança pobre é arrumar algum trocado pra sobreviver...

"Ei, garoto! Está trabalhando?", perguntou o moço. "Tô sim, tio! Tô vendendo saco de lixo e carregando sacola", respondeu o guri. O moço ficou sensibilizado. Quantas crianças, hoje em dia, ainda pensam em trabalhar? Quantas são facilmente seduzidas por uma vida de pequenos delitos que vão crescendo em número e grau junto com a idade? Quantos aprendem a atuar no tráfico e na prostituição para ganhar dinheiro?

O moço deixou que o menino carregasse suas compras. Pensou nos próprios filhos, que seguramente tinham uma realidade de vida bem melhor. Tinham roupas e colégio, comida na mesa e casa confortável, ganhavam presentes e eram cercados de carinho. Não quis ficar perguntando demais, para não constranger o pequeno. Mas não se conteve...

"Quanto custam os sacos de lixo que você está vendendo?", perguntou. "Dez reais, tio", disse o menino. "Eu quero um... Tome os dez reais... E vou dar mais dez reais por carregar as compras pra mim". O menino agradeceu. Missão cumprida! Cliente satisfeito é cliente feliz!

Um sentimento mais fundo, porém, bateu no coração do moço. Que exemplo o daquele menino! Emocionou-se... Podia ser um de seus filhos, por quê não? E se as coisas não tivessem dado tão certo na vida? Não seria um de seus pequenos ali buscando a sobrevivência? Então, resolveu ir além e disse:

"Menino... Olhe aqui... Tome... Eu te paguei vinte reais e agora vou te dar outros vinte, para que você nunca desista de estudar e trabalhar. Mesmo sendo mais difícil, é assim que você vai crescer um homem de bem, uma pessoa legal. Continue na luta, não se deixe levar pelas facilidades, por coisas ruins que o crime oferece. Fique firme, menino. Parabéns pelo seu esforço".

Admirado, o menino não conseguiu esboçar um sorriso. Talvez estivesse cansado demais. Mas respondeu, agradecendo: "Pode deixar, tio... Não vou parar não... Obrigado, tio". O moço entrou no carro e partiu, pensando sobre o que o futuro reservaria para aquele garoto.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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