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Publicado: Quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Conto de Natal - 2018

Família normal.

Pai, mãe; filhos, Egberto, 12; Egídio 14 e Verinha, 6.

Eis que a fatalidade desmorona sobre eles. Papai Alberto falece inesperadamente, sem sinal de males anteriores, de repente pois.

Sim, sobrara-lhes a parca pensão, obviamente sem que isso significasse muita coisa. De certo modo um choque, eis que os vencimentos do falecido eram consideráveis e lhes permitia aos seus vida confortável.

Após os funerais, semana depois, o pequenino Egberto surpreende a mamãe Elza a chorar escondida, no quarto do casal. Corre para o abraço, chora ele também e, sem se desvencilhar dos afagos dela, tenta trazer-lhe conforto. Mais que isso:

- “Mamãe, tudo vai melhorar. Eu aprendi a empalhar cadeiras com assento de vime e então também vou ajudar nas coisas de casa. Pare mamãe.”

Não se sabe onde ela angariou forças e reprimiu as lágrimas, embora continuasse aos pedaços o seu coração.

Afiançou ao garoto que todos se empenhariam.

Egídio, costumeiramente o primeiro da classe, avançava com muito sucesso nos seus estudos, mas, também ele, após o jantar informou que, para o período da tarde, obtivera colocação em escritório do genitor de um de seus colegas. Com serviços gerais e num aprendizado contínuo, iria se preparar aos poucos para a formação na área, não só como contador mas principalmente em advocacia, o seu sonho maior.

Uns e outros encorajando-se entre si.

Semanas depois, Egberto e a Verinha, favorecidos pelo comportamento e notas excelentes, ambos da mesma escola, são premiados com bolsas de estudo, extensivas para o ano seguinte.

Vai daí que dona Elza, formada em arquitetura, entretanto ainda sem o exercício na área propriamente dita, eis que o diploma e casamento se deram num mesmo trimestre e se tornara mãe exatamente um ano depois; abdicara, em princípio, de trabalhar.

Sentiu, conquanto talvez por vias outras, que era chegado o momento de se lançar, eis que tino e alma de empreendedora não lhe faltavam. Quedara-se quieta até ali, de mãe estremada que era, a priorizar esposo e filhos, a família enfim. Pendores eminentemente femininos, que muitas mulheres ainda preconizam e elegem como prioridade.

Tamanho o prestígio do papai, que homenagens de toda sorte se fizeram em caráter póstumo à relevante atuação dele na cidade. Vinculado a várias associações e clubes de serviço. O Legislativo, pela vez primeira e de imediato, conferiu-lhe o título de Cidadão Emérito.

Bem. Para o cômputo e entendimento de como Deus se manifesta e bem assim a se fazer o ser humano confiante, mesmo nas adversidades, tal como se parecesse que Ele pudesse se omitir circunstancialmente, tudo não fora somente agruras.

A própria repercussão social a evocar de tantas formas a excelência do caráter do cidadão Alberto de Lima Neto, concorreram para amenizar aos poucos as dores até de seus familiares. Querido de todos, ele.

Daí que também a proximidade do Natal, - o desenlace ocorrera em fins de setembro – concorreu para amainar as dores e saudades.

A começar do fato de que, no dia 10 do último mês do ano, alguém bate à porta da residência de dona Elza.

- Oi. Entre senhor Giuseppe, que prazer vê-lo. Fique à vontade. Então, como vão o senhor e a dona Valquíria?

O senhor Giuseppe tinha como atividade de longa data, a da representação na cidade da companhia de seguros “Harmonia”, por demais conhecida e acatada.

Desde março, o senhor Alberto contratara um seguro de vida em valor deveras expressivo, sem prazo de carência. Pretendia então, como surpresa bem guardada, só revelar o fato à família, na noite de Natal.

E agora, diante das circunstâncias, a ele, senhor Giuseppe, cumpria-lhe comunicar que todos os trâmites do pagamento desse prêmio significativo, deles cuidara ciosamente. Carecia, pois, à dona Elza, apenas comparecer ao escritório e designar sua conta bancária para o respectivo crédito.

Dona Elza sentou-se.

Respirou fundo repetidas vezes.

Percebera-se no seu semblante um misto de alegria e de choro, simultaneamente.

E, sentada ainda, gritou, - “crianças, venham aqui” - tão alto, que os três acudiram quase aos tropeços até à sala e souberam da boa nova que lhes acontecia.

Talvez os dois menores, pelo menos, na sua inocência, não chegassem a entender ainda todo o significado do surpreendente acontecimento.

O fato é que o Egberto de imediato exclamou:

- “Oba, vou poder comprar mais fios de vime, que os meus estão acabando!”

Dona Elza puxou os pequeninos para seu colo e de imediato o Egídio, por trás da cadeira, envolveu os três num único e apertado abraço.

 

 

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Bernardo Campos

Bernardo Campos

Jornalista e advogado. Alma de cronista, colhe impressões das pessoas, dos fatos e dos costumes. Daqui e do mundo.

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