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Publicado: Terça-feira, 18 de novembro de 2014

Consciência, sem cor

Crédito: Internet Consciência, sem cor
Mais consciência: estamos no mesmo barco.

Sou contra o Dia da Consciência Negra. Assim como sou contra os vários "Dias" criados por aí. Inicialmente, cabe dizer: não sou racista, nem preconceituoso ou algo do tipo. Não vivo sob essa ótica no meu dia a dia. Então, que ninguém venha com a baixeza de um argumento tão ridículo para o meu lado. Esta é uma conversa para gente grande.

Quando digo ser contra os tais "Dias", como o deste 20 de novembro, é porque os acho completamente reducionistas. Desde o início de sua história o Brasil recebeu valiosas contribuições culturais dos negros, em todos os aspectos. Resumir a uma data o papel dos negros na formação da identidade brasileira é, para mim, um tipo de segregação, um preconceito disfarçado e às avessas.

O dia dos negros é todo dia. No cotidiano das nossas cidades, a maioria de nós está no mesmo barco: negros e brancos, amarelos e cor-de-rosa, dividindo o aperto dos ônibus, suportando a carga tributária, temendo a violência, suando para estudar e trabalhar, sonhando com uma vida digna para nós e nossos filhos.

Se para uns o Dia da Consciência Negra desperta paixões, para mim trata-se da sociedade assumindo inconscientemente uma inaceitável situação de rebaixamento dos negros em geral, criando uma espécie de subtipo. Só há "Dias" para as classes que a sociedade considera "menores": negros, mulheres, crianças, idosos, homossexuais, etc.

Não há um "Dia" do branco ou do judeu; não há um dia do homem ou do adulto; há o "Dia do Coletor de Lixo", mas não há o "Dia do Banqueiro Privado". É a onda do "politicamente correto" querendo compensar, por comemorações inúteis, as injustiças históricas cometidas e ainda não totalmente corrigidas.

A falácia da celebração desse "Dia" é um tipo de hipocrisia social e coletiva. Celebra-se a negritude brasileira em uma certa data, fazem-se atos religiosos e civis; organizam-se festas com grupos de samba e pagode, publicam-se notas e manchetes na mídia em geral...

Nos demais 364 dias do ano, porém, o assunto é vergonhosamente esquecido. Durante o ano quantos negros são assassinados? Nesse mesmo período, quantos homossexuais também o são? Entretanto, vemos mais manchetes falando de homofobia do que de racismo, mesmo havendo entre nós mais negros do que homossexuais. É uma prova de que, no Brasil, o Dia da Consciência Negra é somente mais um feriado nacional. O brasileiro é um povo festeiro.

Prefiro celebrar a negritude diariamente, quando leio Machado de Assis; quando escuto Pixinguinha ou Cartola; quando vejo Milton Gonçalves atuar; quando vibro com um gol de Neymar; quando rezo a Santo Agostinho, o Padroeiro dos Filósofos (que provavelmente era negro também). Não gosto da idéia de ligar o valor da negritude a um Zumbi, figura extremamente controversa. Em nossa história, temos negros muito mais dignos para servir como ícone.

Em vez de nos contentarmos com festas e batuques de um dia só, devemos lutar para que os negros brasileiros tenham acesso a oportunidades como qualquer pessoa. Em vez de cotas para as universidades, precisamos exigir que todas as crianças brasileiras tenham uma escola que lhes possibilitem alcançar futuramente os lugares mais altos na sociedade.

Em vez de discursos vazios e "politicamente corretos", devemos brigar pelos direitos trabalhistas e pela igualdade de salários. Em vez de ensinar às futuras gerações o racismo disfarçado praticado em nosso país, solucionar o caso dos negros que constituem cerca de 65% da nossa população carcerária, já ultrapassando a quantidade de 500 mil presos.

Não precisamos de um Dia da Consciência Negra. Precisamos de um Dia de Consciência, sem cor. E para celebrar de verdade a negritude brasileira, temos que parar com a hipocrisia e o mimimi.

Não tenho amigos negros: tenho amigos. Amizades não têm cor e não faço as minhas estabelecendo critérios mesquinhos. Tenho amigos brancos, negros, amarelos, cor-de-rosa, ateus, evangélicos, umbandistas, judeus, católicos, agnósticos, altos, baixos, magros, gordinhos, pobres, ricos, petistas, peemedebistas, tucanos, etc.

Meu cunhado, marido da minha irmã, é negro. Tenho muito orgulho dele: é um homem honesto, trabalhador, cristão, pai do meu sobrinho e o tenho em uma consideração mais alta do que a mim mesmo. Eu admiro o Xico (meu cunhado) pela pessoa que ele é, não por sua cor de pele. Nosso sangue é da mesma cor. Nós suamos do mesmo jeito ao trabalhar. Nós choramos o mesmo tipo de lágrima. Ao sorrir, nossos dentes brancos são iguais. Nossa fé é incolor, nossa alma invisível também não tem cores para nos diferenciar.

Aos que ainda insistirem na cantilena infantil de que a Igreja um dia também teve escravos, etc e tal, sugiro que estudem a vida de São Benedito e dos demais santos negros da nossa história bimilenar, assim como a biografia dos padres, bispos e papas que lutaram contra a escravidão de qualquer ser humano (não só dos negros) ao longo dos séculos. Também convido a conhecerem nossas comunidades cristãs para verificar o grande número de padres, pastores e fiéis que têm a pele negra e vivem a fé sem fazer disso algo que os diferencie de qualquer outra pessoa.

Partilho as minhas opiniões para colaborar com o debate democrático, pois tenho direito a isso.  Se eu fosse negro, não gostaria de ter um "Dia" para celebrar apenas a minha pele. Sentir-me-ia rebaixado, diminuído, reclassificado e permanentemente rotulado. Se o Brasil quer igualdade para todos os brasileiros, então que trate a todos os brasileiros igualmente e deixe de lado essas hipocrisias criadas artificialmente para nos diferenciar. Brasileiro deve ser brasileiro, independentemente da cor da pele.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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