Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 7 de março de 2011

Confidências do Robson

Sou um garoto que foi adotado recentemente.

Um casal que eu nunca tinha visto levou-me para sua casa onde já viviam duas meninas e um menino de minha idade, filhos deles.

A senhora quis ser simpática comigo. Comprou-me roupas, calçado, pente, escova de dentes e mais uma mão de coisas que eu nem sabia como usar.

Disse que eu devia chamá-los de “Mamãe e Papai” e que as crianças eram meus novos irmãos.

No começo foi interessante. Era uma vida nova, numa bela casa, com muita comida, brinquedos, boa cama, uma mochila com absolutamente tudo o que eu precisava na escola onde ia estudar.

A escola também era chique, grande, afamada e cara, mas eu era o único aluno negro e isso me fazia destoar no meio dos outros.

Na minha nova família também, eram todos brancos e eu me sentia o diferente.

Meu novo pai percebeu meu constrangimento e tentou dizer-me que a cor da pele não importa desde que sejamos, bons, honestos, estudiosos, essas coisas que todo mundo sabe que é balela.

Minha avó quis convencer-me de que é bom ser o diferente.
“Se houver um buquê de rosas brancas e apenas uma vermelha, a vermelha será mais valorizada.”

Será?

Nos primeiros dias todos me agradaram muito, mas logo passaram a querer me educar e se tornaram terrivelmente chatos.

Na casa de meus pais verdadeiros, quando tinha comida, a gente precisava comer depressa se não os outros comiam tudo e a gente ficava sem nada. Comia com a colher ou com a mão e ninguém se importava com isso, o importante era matar a fome que ameaçava nos matar.

Aqui tem todos os dias, comida variada, mas a Mamãe quer que eu coma legumes que eu não gosto.

Além disso, quer que coma. devagar e que use o garfo e a faca como “gente” (palavra dela).

Apesar da fartura, as horas das refeições são um martírio pra mim.

Eu vou muito bem na escola. Melhor do que a maioria de meus colegas, mas a professora insiste em me dar nota baixa porque eu sou briguento e falo nomes feios.

Então, a gente não pode se defender?

Meu pai dizia que a gente tem que ser valente para os outros nos respeitarem;

Meu novo pai diz que a gente não deve começar uma briga e se os outros começarem, sair de perto..

E ouvir os outros gritarem: “Correu de medo...”? Pois sim!

O sonho de meu novo pai é ter um filho médico.

Os filhos verdadeiros (eles insistem em dizer que eu também sou um filho verdadeiro, embora não seja “biológico” Que será isso?) não gostam de estudar e vão muito mal na escola. Eu me esforço para tirar só notas boas porque quero ser melhor do que eles em alguma coisa.

Mas, não sei não se vou querer ser médico. Eu prefiro ser jogador de futebol.
 

Comentários

Os contos da Maith

Maith

Maith

Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

Arquivo

30 de abril de 2012

Um rosto barbado

23 de abril de 2012

O ovo da Páscoa

16 de abril de 2012

Pode me chamar de Judas

9 de abril de 2012

Do diário de uma adolescente

2 de abril de 2012

Flores da minha vida