Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Confidências de madrugada

Já era madrugada e Larissa revirava-se na cama. Passara quase a noite toda acordada, remoendo seus problemas sem encontrar uma solução. De repente lembrou-se de Felipe, um orador que costumava fazer palestras numa entidade religiosa que ela freqüentava. Ela admirava muito a sua desenvoltura, sua segurança. Parecia uma pessoa plenamente realizada, de bem com a vida.

Era psicólogo. Parecia ter soluções para todos os males e as garotas o procuravam para contar seus problemas e filar uma consulta. Ele atendia sempre com a melhor boa vontade.

Ela tinha vontade de conversar com ele, mas não achava jeito de aproximar-se. Ele era tão requisitado! Teve uma idéia meio louca:

Vou ligar pra ele!

Pegou a Lista Telefônica, achou o número e anotou na beirada.
Não! Que absurdo! A estas horas da madrugada! Mas pegou o telefone e começou a discar.

Parou.

Desligou. Colocou no gancho.

Tornou a pegar. Discou novamente...

Depois de toda essa hesitação acabou completando a ligação:

- Alô!

A voz do lado de lá era firme e forte. Não parecia de alguém que tivesse acordado com o toque.

- Alô! Repetiu. Quem é?

-... Larissa...É o Felipe?

- Sim!

- Desculpe ligar a esta hora, mas eu sou do grupo de jovens, você deve me conhecer de vista. Eu estou muito agoniada, precisava falar com alguém. Lembrei-me de você. Desculpe!

- Não precisa se desculpar. Eu também estava sem sono, remoendo meus problemas. Vai ser bom conversar um pouco. Conte-me o que a está preocupando tanto.

- Estou desempregada, faz um bom tempo e não há meios de conseguir um trabalho, minhas economias estão no fim e não sei como vou viver se não encontrar alguma coisa logo.

- Calma! Passe-me seus dados. Eu tenho bons relacionamentos, quem sabe consigo arranjar alguma coisa para você?

- Eu era secretária de um executivo. Ganhava bem e tinha um bom padrão de vida.

Mas a empresa ia mal e ele dispensou-me por medida de economia. Gostaria de encontrar algo do mesmo nível, mas, se não for possível, aceito qualquer coisa só para não continuar parada.

- Vou ver o que posso fazer. Tomara que consiga arranjar-lhe uma boa colocação!

- Muito obrigada! Vou desligar. Mais uma vez me desculpe o incômodo. Sou meio maluca, mesmo!

- Não desligue. Vamos conversar um pouco. Eu também estou mal comigo mesmo, precisando conversar com alguém.

Larissa não acreditava no que estava acontecendo. O Felipe querendo conversar com ela em plena madrugada! Mas perguntou:

- Quer me contar o seu problema? Quem sabe eu posso ajudá-lo.

Riu consigo mesma:

- Imagine se o Felipe precisa de mim para alguma coisa!

Ele riu divertido e perguntou:

- Está com paciência para ouvir uma história de amor, ódio e fossa.

- Adoro histórias de amor! Principalmente as verídicas!

- A minha história é tão idiota quanto eu mesmo.

- Não diga isso. Você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço!

- Pois ouça e depois me diga se conhece alguém mais idiota do que eu.

Namorei uma moça durante anos. Era apaixonado por ela, mas sabia que ela não gostava de mim, pelo menos não para casar, pois sempre que eu falava em casamento ela pedia um tempo. Achava que ainda não estava na hora.

Há um ano atrás descobri que ela tinha um caso com um homem casado.

Rompemos, é claro.

Mas a mãe dela gostava muito de mim e queria a todo custo que ela terminasse esse caso e que eu relevasse tudo e me casasse com ela. Tanto ela fez que a moça acabasse me jurando que foi só uma fraqueza, que era de mim que ela gostava de verdade e eu, como sou um idiota, acabei perdoando e continuamos a namorar.

Agora descobri que ela continua se encontrando com o sujeito.

Desta vez, terminei mesmo, mas o amor transformou-se em ódio e está me fazendo muito mal. Sou um idiota, mesmo!

- Você precisa perdoar esquecer e deixar de considerar-se um idiota quando foi apenas bom e generoso.

Larissa teve a impressão de estar repetindo coisas ouvidas dele nas palestras.

- Isto é o que estou dizendo a mim mesmo desde que deitei nesta cama, mas uma coisa é saber o que deve ser feito e outra, muito diferente, é conseguir fazer.

Mas, fale mais de você, de sua família, de sua infância.

- Eu vim de uma cidade do interior. Meus pais eram pobres, tinham muitos filhos e a nossa vida era muito difícil.

Com dezoito anos vim trabalhar na capital, emprego arranjado por um amigo da família. Empregada doméstica.

Trabalhei muitos anos, estudei, prestei um concurso. Consegui um emprego público, mas me demiti para trabalhar como secretária ganhando muito mais. Só que agora a firma faliu e eu estou na rua.

E você? Conte-me alguma coisa de sua vida familiar.

- Meus pais são separados e se casaram novamente.

Eu morava com minha irmã, mas agora ela se casou e eu estou morando só.

E a conversa continuou...

Falaram de tudo que se possa imaginar. Das suas vidas pessoais, seus trabalhos, suas preferências. Riram lembrando passagens divertidas.

Quando começaram a falar de religião, então, o assunto parecia inesgotável. Nem perceberam passar o tempo!

De repente ela olhou pela janela e viu que já estava amanhecendo.

- Nossa! Já é quase dia!  Agora é melhor desligar para ver se dormimos um pouco.

- Eu não estou com sono. Estou com vontade de tomar um café.

- Hummmm! Você me deu uma boa idéia. Vou levantar e passar um cafezinho.

- Eu tenho uma idéia melhor. Vamos tomar esse café juntos? Eu conheço uma lanchonete que serve um excelente café da manhã. Passo aí dentro de meia hora. Topa?

Que loucura!

- Bem, acho que já disse que sou meio maluca, não? Topo!

Comentários

Os contos da Maith

Maith

Maith

Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

Arquivo

30 de abril de 2012

Um rosto barbado

23 de abril de 2012

O ovo da Páscoa

16 de abril de 2012

Pode me chamar de Judas

9 de abril de 2012

Do diário de uma adolescente

2 de abril de 2012

Flores da minha vida