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Publicado: Segunda-feira, 8 de junho de 2009

Caminhos Diferentes

Os dois eram meninos de rua. Eduardo, o Panela e Maurício, o Bentevi. Por que esses apelidos? O Eduardo era ruivo e tinha muitas sardas. Como os colegas diziam que o que enferruja é panela de ferro começaram a chamá-lo de Panela.
 
Maurício fazia parte da mine gang e sua função era espiar de longe enquanto os outros faziam as malandragens para avisar dos “perigos". Por isso o chamavam de Bentevi.

Aliás, todos tinham apelidos, mas isso não era o pior. O mais grave de tudo é que iam por um péssimo caminho. Viviam pelas ruas fazendo todo tipo de travessuras sem ter quem os orientasse. Praticavam pequenos furtos e alguns já estavam se envolvendo com drogas.

À tardinha se reuniam em um campinho perto da praia e jogavam futebol. (Bola e chuteiras surrupiadas num cochilo do vendedor de alguma loja.)

E foi numa bela tarde de sol, durante uma dessas peladas, que um técnico descobriu o Bentevi.

Com seu olho clínico adivinhou-lhe o talento inato e resolveu investir nele. Levou-o para uma Escolinha de Futebol, depois para um clube da cidade e, passo a passo dentro de alguns anos, ele se tornou um grande jogador disputado pelos maiores clubes.

Sua vida mudou completamente. Agora ganhava muito bem e tinha tudo o que queria. Conforto, popularidade, aplausos.

Adquiriu certa cultura, reformulou seus conceitos de honestidade e de comportamento, tornou-se outro homem.

Foi ficando cada vez mais longe na sua lembrança seus dias de malandrinho de rua, ladrãozinho e malcriado.

E foi então que, um dia, em um longínquo país onde atuava num grande clube, num momento de lazer no hall do luxuoso hotel onde se hospedava, abriu um jornal do Brasil e viu a notícia

Eduardo da Silva, o Panela, fora preso!
Latrocínio. Assaltara e matara para roubar!
Maurício se emociona. Lembra sua infância desprotegida e imagina o que poderia ter sido a sua vida se um novo caminho não se tivesse aberto para ele.

Estava absorto em suas recordações quando um colega brasileiro chegou e viu o jornal.
- Oh! Um jornal do Brasil!

Começa a folheá-lo, vê a notícia e brinca com o companheiro:
- Olhe, um crime lá na sua terra! Será que esse bandido não é seu parente?

Maurício responde no mesmo tom de brincadeira:
- Parente não é, mas é meu amigo. Fizemos muitos assaltos juntos.

Os dois riem, mas Maurício sente um nó na garganta.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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