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Publicado: Segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Cachorromania

Quando criança, tive vários cachorros. De vez em quando visito a minha infância (aquilo é que era vida despreocupada...) a revejo meus animais de estimação. Pessoalmente acho saudável para uma criança ter a companhia de cachorros e gatos, pássaros e peixes. Há inclusive estudos afirmando que crianças acostumadas com animais de estimação são mentalmente mais saudáveis e mais sociáveis.
Cinderela foi a primeira cadelinha que tive, logo aos quatro anos de idade. Ela assistia comigo os programas na televisão, zanzava pela casa o dia inteiro atrás de mim. Era lindamente amarela e elegante. Morreu de hemorragia, quando um pedrisco entrou por uma de suas narinas....
Floquinho chegou tempos depois da Cinderela. Ela bobão e medroso, além de muito peludo e malhado. Certa vez minha mãe contratou um fotógrafo para fazer um álbum meu. Coisa de mãe-coruja. Em certo momento inventaram de colocar o Floquinho no meu colo para tirar uma fotografia com o bichinho. O flash disparou e o Floquinho também. Mas antes de sair correndo de susto ele deixou sua “marca registrada” em mim, marca aliás bastante úmida...
Pituxa era uma gracinha. Pequena e afoita, comia demais. Devorava uma, duas, três tigelas de angu. Acabava com as sobras do almoço e do jantar. Nem é preciso dizer que não durou muito tempo. Morreu com problemas gastro-intestinais. Se fosse humana teria necessitado de uma operação de redução de estômago, para diminuir seu apetite...
Pituca foi a mais companheira. Me acompanhou dos 6 aos 20 anos de idade. Fazia festa quando eu estava alegre. Ficava ao meu lado quando eu chorava. Queria me acompanhar em todos os lugares, até fora de casa. Quando ela fugiu pela primeira vez, morri de medo. Mas ela aprendeu a voltar pra casa, como qualquer cadela esperta. Era preta e tinha uma mancha branca na pata esquerda. Morreu de velhice. Um dia cheguei em casa e ela estava lá no corredor: parada, caída, durinha, com as patas pra cima. No começo da minha juventude, foi mais um sinal de que a infância estava ficando cada vez mais para trás.
Desde Pituca, não tive mais animais de estimação. A gente cresce, começa a trabalhar, entra na faculdade, engata um namoro a sério, passa a sair com os amigos, investe tempo em cursos. Vai faltando tempo até para cuidar de nós mesmos, quanto mais para dar atenção a um bichinho. Porém, às vezes sinto falta. Os bichos são muito agradáveis. Gostam de você somente porque gostam de você. São felizes apenas por estar ao nosso lado. Não precisam inventar desculpas, contar mentiras ou ficar fazendo média. Não têm raciocínio, mas são sinceros. Mesmo que você se ausente durante dias, nunca esquecem a voz do dono. E minutos depois de os tratarmos mal com um “sai pra lá”, já estão voltando aos nossos pés para pedir um afago, uma atenção, alguns minutos de brincadeira.
Não sei se é dessa nobre presença dos cachorros que sinto falta. Não sei se sinto falta desse que é considerado “o melhor amigo do homem”. Talvez seja isso e mais um pouco. Talvez eu sinta a falta da infância que recordo cada vez que vejo uma criança brincando com seu bichinho de estimação. Vá saber? Freud explica.Se a vida tem suas fases (e o presente também considero estar ótimo) é normal recordar o que ficou para trás. Um tempo em que coisas tão banais para algumas pessoas, como a presença de um cachorro, torna-se parte importante nas lembranças da gente.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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