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Publicado: Domingo, 15 de setembro de 2019

Um cão chamado Bumma

Crédito: Arquivo da autora Um cão chamado Bumma

 

O vira-lata de cor branca luminosa com manchas pretas entrou de mansinho e deitou-se aos pés da mulher, sentada na cadeira de balanço. Ela se levantou e, arrastando os pés, dirigiu-se ao fogão. O cão latiu e abanou o toco de rabo - decepado por algum cérebro demente - clamando pela atenção que, daquela vez, não veio.

A mulher mexeu lentamente a panela. Não havia pressa. As estações se seguiam umas às outras e o tempo encontrava seu destino. Não era a velhice que pesava. Era a aridez do coração. Todos haviam partido - amantes, amadas, amigos e filhos - para a morte ou para a vida.

Pequeno e roliço, o animal de baixa estatura e patas delicadas, tinha longas orelhas pontudas, numa incongruente mistura de raposa e coelho - incluída aí a magnífica pelagem cerrada, de curtos fios de seda.

Era ele o companheiro inseparável das madrugadas insones, de ires e vires e de todos os amanheceres, quando a despertava tocando-lhe a mão. Ela sabia que era amada. Ele também.

Lá fora a chuva caía em grandes bagas, afogando a natureza em dilúvio.  Tempo ruim – resmungou ela.

Anoiteceu e a mulher se deitou. Fazia frio e o cão instalou-se em sua cama, aconchegado nas cobertas.

O sono profundo trouxe uma legião de seres fantásticos. Perseguida numa floresta escura, a mulher corria desabaladamente. Sabia que deveria proteger com a própria vida algo que um dia lhe fora confiado. Um pavor indizível tomou conta dela.

Dominada, foi arrastada até uma clareira onde uma multidão se encontrava à frente de um enorme tablado. Sobre ele, numa torre com um balcão, uma figura feminina encoberta por uma capa vermelha, exigia que revelasse o “segredo”. Haviam vencido.

Entre o sono e a vigília a mulher tentou gritar, mas da garganta apertada não saiu qualquer som. Empurrada para o centro do tablado, percebeu vagamente ao seu lado, o vulto de um cão que uivava perdidamente.

Atirada de volta à cama, despertou. Ao seu lado, o fiel companheiro uivava como jamais fizera em toda a sua vida. 

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História & Cotidiano

Katia Auvray

Katia Auvray

Historiadora e escritora. Autora dos livros "Cidade dos Esquecidos - A vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil" e da coleção infanto-juvenil "Magia da História", sobre a história da cidade de Salto/SP. Também é Mestre Reiki.

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Um cão chamado Bumma

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