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Publicado: Sábado, 21 de julho de 2007

Billy, um cãopanheiro

Billy, um cãopanheiro
“O uísque é o melhor amigo do homem... É o cachorro engarrafado!”. Essa é uma das frases mais conhecidas do ilustre Vinícius de Moraes, um bebedor contumaz. De certo modo, concordo com ele. Não por causa do uísque, para o qual não tenho paladar. Mas sim no que diz respeito à amizade dos cães. Funciona tanto essa idéia que, conta uma piada, ao lhe dizerem que sua mulher o estava traindo com o “melhor amigo”, um ingênuo foi para casa e assassinou seu cachorro...
 
Sempre fui acostumado a cachorros. Na infância, eram meus parceiros de brincadeiras. Depois que cresci e tive que começar a cuidar de mim, faltou tempo para cuidar de bichos. Fiquei anos sem um animal de estimação. Recentemente estou experimentando de novo o gosto de ter uma amizade canina. O cão não é meu, é da minha mãe, mas a gente sempre acaba se afeiçoando a essas bolinhas de pêlo que abanam o rabo sem parar.
 
O nome dele é Billy e foi achado na rua. Parecia um mendiguinho de quatro patas. Todo sujo e fedido, passou por um banho geral. Seu pêlo voltou a ficar branco e macio, como fios de prata. Engordou, aprendeu de novo a confiar nos seres humanos. Gosta de brincar, de pular no colo, de correr atrás do pé da gente. Também gosta de dormir e de roer seus ossinhos, como qualquer cachorro comum.
 
Pesquisas comprovam que ter animais de estimação em casa faz bem à saúde, principalmente para o nosso estado mental. Há tratamentos contra a depressão e outras anomalias ligadas ao humor que indicam a convivência com animais, sejam cães, gatos, pássaros ou cavalos. É uma relação invisível. Parece que receber carinho, mesmo que de um bicho dito irracional, faz algum bem para nós.
 
Billy não parece irracional, é esperto. Entende perfeitamente a palavra “passear”. De uns meses para cá, comecei a colocar a coleira nele e levá-lo para umas voltas no quarteirão. Tomei esta atitude porque acho cachorro gordo muito feio do que um ser humano gordo e não queria um canino obeso no quintal de casa.
 
Percebi que as “cãominhadas” fazem bem para o Billy. Ele fica muito menos estressado ao voltar para casa. Ao chegar de volta, bebe água e vai dormir. Acostumado com essa rotina, já aprendeu em qual lugar guardamos a coleira e todas as vezes que nos aproximamos do tal armário, ele pula como pipoca.
 
Hoje já não sei se eu levo o Billy para passear ou se ele é que me leva. Sim, pois eu também me divirto. Morro de rir quando se enrosca com a coleira em algum poste, quando fica confuso andando em meio à multidão, quando se assusta com o motor dos veículos, quando quer partir para cima de um pastor-alemão que encontramos no caminho.
 
Levar o cão para passear pode ser uma terapia. Enquanto ele cheira postes e irriga árvores, faço uma pausa mental em todas as minhas obrigações e preocupações. Acabo levando o pensamento para longe, revivendo tempos passados ou prevendo tempos futuros. Esses intervalos são fundamentais para quem pensa 24 horas por dia e até sonha com trabalho.
 
Aproveito para unir o útil ao agradável. Ao chegar em casa depois do trabalho, sempre que posso, levo Billy para passear. Se tenho algum lugar próximo para ir, levo-o comigo. Normalmente vamos ao banco, passamos na livraria, na pracinha, na lanchonete ou na padaria. Ambos nos habituamos. Ele é comportado, não é inconveniente, não invoca com as outras pessoas. Só não o levo na igreja. Não sei se ele é católico, pois não discutimos religião. Para ele eu sou apenas o humano que o leva para passear. E para mim... Para mim ele é o Billy. E não se late mais nisso.
 
Amém.
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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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