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Publicado: Sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Bendito seja o quinto dia útil

Como numa história de ação e aventura, daquelas em que corremos grandes perigos, eis que ele surge para nos salvar. Bendito seja o quinto dia útil! No Brasil milhões de trabalhadores aguardam avidamente por este momento a fim de darem conta de seus respectivos orçamentos. São contas a pagar, carnês para quitar, dívidas para encerrar.

O trabalho dignifica o homem, reza o ditado. E o fruto desse trabalho é a recompensa de cada um pelo esforço e dedicação a ele oferecido. Não se pode trabalhar de graça. Todos têm direito a alguma remuneração. De preferência que seja digna e equivalente aos seus esforços.

Se o salário não vier após o trabalho, vive-se na condição de escravo que trabalha para o enriquecimento dos outros, sem ganhar nada para si. Mas e os voluntários? Podem perguntar alguns. Afinal, esses muitas vezes trabalham sem receber nada em troca. Estão enganados. O salário do voluntário muitas vezes é a satisfação em estar ajudando. De uma forma não material ele se sente recompensado, seja emocional ou psicologicamente.

Diante da crise do mensalão, tiro as minhas conclusões: tem certo tipo de gente que não sabe o que é ter salário. Não sabe o que é receber remuneração honesta, mesmo que de pequeno valor. Não sabe a alegria de contar os trocados, de separar o dinheiro para o pagamento das contas, de guardar aquelas merrequinhas na poupança. Eita vida sem graça essa dos que se afogam em milhões e milhões de reais, oriundas de malas executivas e de dízimos universais. Ainda bem que nunca alguém morreu por overdose de dinheiro.

Por outro lado, são inúmeras as famílias brasileiras vivendo em condições precárias, muitas vezes com um mísero salário-mínimo. Pais com cinco ou seis filhos, morando em favelas e em bairros da periferia, têm que fazer mágicas e contorcionismos para passar o mês com 300 reais.

O salário-mínimo assegura um ganho bem “mínimo” mesmo, o famoso “melhor que nada”. Trata-se de uma das coisas mais vergonhosas do nosso Brasil. Para essas famílias carentes, uma única mala mensalônica resolveria (talvez para sempre) o problema da criação dos filhos, de uma boa educação para eles, de uma saúde razoável e de uma alimentação digna. Esse é o Brasil das diferenças, das disparidades. Das malas milionárias e das famílias miseráveis. Um país tão rico e tão pobre ao mesmo tempo.

Adolescente, fiz uma promessa a mim mesmo: quando chegasse aos 25 anos de idade, teria cem mil reais na poupança. Desde então cumpri pelo menos metade da promessa. Não, não acumulei 50 mil reais no banco. Mas pelo menos já passei dos 25 anos. Se você ainda não é um milionário, como eu, agradeçamos juntos pelo bendito quinto dia útil, sempre marcado por nós com aquele círculo vermelho no calendário.

É melhor viver com um salário justo, do que com mensalão. É muito mais compensador trabalhar de verdade e com honestidade para construir o próprio patrimônio, mesmo que demore vários anos. Os “pobres porém honrados” não se divertem em iates, não fazem viagens ao exterior, não exibem carros e nem apartamentos luxuosos. Mas tudo o que conquistam conseguem realmente por seus esforços, mesmo que seja a casinha simples, o “poisé” na garagem, a roupa comprada no crediário e paga em três vezes sem juros.Bendito seja o quinto dia útil! E benditos aqueles que honram o seu trabalho.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é sacerdote católico apostólico romano e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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