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Publicado: Domingo, 21 de abril de 2019

Barrabás! Que fim levou Barrabás?

Barrabás! Que fim levou Barrabás?
Ele tinha certeza de que iria se lascar. E como tinha. Carregaria pela eternidade uma maldição da qual nem depois de morto conseguiria se livrar. Entraria para a história como vilão, para jamais sair. 
 
Depois de solto naquela fatídica sexta-feira, foi visto durante certo tempo lixando, na base da lima, pedriscos irregulares para transformá-los em pedregulhos redondos, que depois eram ensacados e levados por escravos à Via Sacra, para pavimentá-la. Belo castigo para quem se safou no páreo contra o Salvador do mundo. Embora a culpa não fosse de Barrabás, e sim da multidão que o mandou libertar.
 
Em seguida se aventurou como guia turístico na cidade santa, caminhando todo dia pelos pedregulhos que ele mesmo havia polido, e levando com ele multidões de turistas. O city tour seguia sempre em relativa ordem, até chegar ao local onde Pilatos havia lavado as mãos e libertado o agora guia de turismo, a pedido do povo. Ao afirmar que o bíblico Barrabás era ele próprio, de imediato começavam as cusparadas, arranhões, croques na cabeça, chapuletadas e puxões violentos de cabelo, interrompendo a Via Sacra bem antes da escalada ao Monte Calvário. 
 
A verdade é que a barra, que já fazia parte do nome do infeliz, pesou cada vez mais pelo resto da vida dele. Tentou voltar à boa e velha rotina de delinquência, mas para isso precisava de comparsas. Só que virar o braço direito de Barrabás, depois de tudo o que aconteceu, assustava até os gatunos mais inescrupulosos. Era maldição demais, nem a escória da época se dispunha a assumir o risco de uma sociedade com o dito cujo. 
 
Afirmam alguns que definhou, desassistido, até a morte. Mas tais testemunhos não foram comprovados, e é bem possível que tenha terminado seus dias no comando de alguma peixaria em Cafarnaum, Emaús ou Betsaida. Com a barba raspada e identidade falsa, evidentemente. 
 
 
 
 
 
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Líricas Bulhufas

Marcelo Sguassábia

Marcelo Sguassábia

Humor, nonsense e sátira. Junte a isso algumas incursões no universo onírico. É esse mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido. Sou redator publicitário e tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas e um jornal impresso.

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