Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 3 de novembro de 2008

As Garras da Ambição

Débora estava, já há algum tempo, desempregada.
 
Estava chegando às raias do desespero com as economias zeradas e as contas acumulando-se.
 
Foi então que sua amiga, Anita, que vendia produtos trazidos do Paraguai, a convidou para trabalhar com ela.
 
Débora ficou indecisa:
 
- Eu acho perigoso...
 
- Não há perigo algum, desde que a gente compre dentro do limite permitido. Se você for comigo, poderemos comprar o dobro do que normalmente eu trago e a gente divide os lucros. Sendo duas para vender, naturalmente vamos liquidar mais depressa e voltar logo a fazer novas compras. O lucro é ótimo. Posso garantir.
 
E foi assim que Débora tornou-se uma sacoleira.
 
Depois de algum tempo desligou-se da amiga e começou a fazer seus próprios negócios. Seu objetivo era um dia abrir uma lojinha, e trabalhar legalizada, mas para isso precisava de algum dinheiro e, embora trabalhasse muito, viajasse freqüentemente, seu capital não aumentava com facilidade.

E foi então que ela conheceu o Miguel. Miguel era um rapaz alegre e simpático que logo se tornou muito amigo dela e estava sempre sugerindo melhores negócios, dando dicas de melhores locais para comprar, etc.
 
Débora admirava-o muito. Parecia uma pessoa super- vitoriosa na vida.
 
Quando ele disse pela primeira vez que o "quente" mesmo eram as mercadorias proibidas, anticoncepcionais e drogas ela ficou escandalizada.

Não! Ela nunca faria isso.
 
Mas, alguns dias depois Miguel voltou ao assunto. Contou-lhe quanto ganhava e Débora ficou deslumbrada.
 
Ela já estava muito cansada. Fazia a viagem longa e desconfortável duas vezes por semana e, os dias que ficava em casa tinha que correr atrás dos fregueses, fazer as vendas, receber os pagamentos, cobrar as prestações e levantar o dinheiro para a próxima compra.

E o Miguel insistia:
 
- Todo mundo está fazendo isso. Ou você acha que fazem uma viagem dessas só pra comprar relógios, perfumes e brinquedos.
 
E Débora sentiu-se meio boboca, apegando-se a uma moral da qual todo mundo já tinha abdicado.

- Mas isso é muito perigoso. Todo dia ouve-se contar de gente que foi presa por tráfico.
 
- Que nada! A polícia não pega mais do que um por cento e mesmo que pegue a maioria dos policiais aceitam uma gorjeta para fazer olho gordo. O máximo que pode acontecer é a gente perder a mercadoria, mas, paciência! Ossos do ofício. O que a gente ganha dá para compensar isso e muito mais.
 
Miguel era tão seguro, tão convincente que Débora reconsiderou todos os seus princípios e acabou admitindo a possibilidade de entrar para esse lucrativo comércio.
 
- Mas como é que eu vou fazer isso? Como vou comprar? Para quem vou vender?

- Para começar eu vou ajudá-la. Eu deixo a mercadoria com você e mando os fregueses. Você ganha o lucro daquilo que vender. Depois, aos poucos você vai fazendo sua própria freguesia.

Débora ainda ficou apreensiva, mas o Miguel inspirava-lhe confiança. Era esperto e ela acreditava que não ia jogá-la na fogueira.

Se caso acontecer alguma coisa, você liga pra mim que imediatamente eu vou resolver. Não precisa ter medo.
 
E Débora acabou concordando de levar para sua casa uma porção de caixas fechadas, identificadas por código e que ela nem sabia ao certo o que continham.
 
O serviço era muito mais fácil do que Débora imaginara.

Os fregueses chegavam e levavam as caixas pagando importâncias elevadas por elas. O Miguel era uma espécie de atacadista que distribuía a mercadoria para pequenos vendedores.
 
Com o tempo Débora foi acostumando com o lucro fácil e ignorando o perigo que estava correndo, Qualquer coisa o Miguel resolvia. Afinal ele fazia isso há anos e nunca se dera mal. Mas um dia aconteceu o inevitável. A polícia chegou a sua casa e pegou-a em flagrante.
 
Débora foi presa. Em vão tentou comunicar-se com o Miguel. Só então se deu conta de que nem o seu nome completo ela sabia e tudo o que tinha dele era um numero de celular com o qual eles se comunicavam.
 
Ligou, conforme ele tinha orientado a fazer, mas ele disse que já estava indo e não apareceu. Quando tentou ligar novamente o telefone estava desligado e ela nunca mais soube dele. Débora foi condenada e presa.

No presídio começou para ela uma vida de sofrimento e remorso.

Por que fora ceder a tentação do lucro fácil? Podia muito bem continuar vendendo suas miudezas e sonhando com a loja que certamente ela poderia ter um dia.

Fora muito ingênua em acreditar no Miguel. Ele parecia tão bom! Tão interessado em ajudá-la! Esses pensamentos não a deixavam por um instante. Eram como um pano de fundo para a sua vida, agora, sem objetivos nem futuro.
 
Olhava o céu "que cobre os bons e os maus" e acreditava que Deus a tivesse abandonado a mercê de seus erros.
  
Mas um dia ela conheceu a Mirtes. Mirtes era assistente social e fazia um trabalho voluntário no presídio feminino. Conversava com as presas e procurava interessá-las em algum tipo de trabalho manual. Oferecia-lhes livros edificantes para lerem e cadernos e canetas para escreverem o q
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Maith

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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