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Publicado: Segunda-feira, 3 de setembro de 2007

As Férias da Mamãe

Eram uma família como muitas outras.
O Papai era muito ocupado. Trabalhava das doze as dezoito, de segunda a sexta, em uma repartição pública. Chegava a casa estressado por causa dos problemas do serviço, da tarde inteira mexendo com papelada, do calor sufocante, do trânsito terrível na hora de voltar pra casa.
 
Chegava. Tomava seu banho, jantava e se espichava no sofá, o jornal esparramado no tapete, lendo e assistindo televisão ao mesmo tempo.
 
As meninas iam à escola, estudavam (um pouco) e, nas horas vagas, telefonavam para as amigas e os amigos, batiam papo na internet ou saiam para dar uma volta.
 
Os meninos vinham da escola, jogavam a mochila em qualquer lugar e passavam o resto do dia comendo guloseimas, brigando e desarrumando a casa.
 
A Mamãe não fazia nada. Só cuidava da casa, do marido, e dos quatro filhos. O Papai tirava suas férias e ia para o Pantanal pescar com os amigos.
 
Não que ele não quisesse viajar com a família, mas, suas férias nunca coincidiam com as dos filhos. Fazer o que?
 
Nas férias escolares, o Papai estava trabalhando e a Mamãe ficava em casa com ele enquanto as crianças participavam de excursões ou acampamentos.
E a Mamãe mesmo, nunca tinha férias,
 
Mas, um belo dia, aconteceu um incidente muito desagradável.
A Mamãe voltava da feira com duas enormes sacolas. Chovia fininho. O piso estava escorregadio e, quando foi subir a escada, já na entrada da casa, escorregou e caiu de mau jeito quebrando uma perna.
 
O acidente lhe rendeu dois meses de cadeira de rodas com a recomendação do médico, de não por o pé no chão.
E daí?
Pai e filhos dividiram entre si as tarefas caseiras.
 
A filha mais velha cozinhava, a outra lavava a louça, os meninos punham e tiravam a mesa e o Papai fazia a limpeza da casa.
 
Todos tinham a obrigação de arrumar sua própria cama e ensaboar e colocar na máquina a sua roupa usada.
 
As meninas passavam a roupa e até o Papai pegava no ferro na tentativa de passar melhor a sua camisa.
 
Estabeleceram, desde logo, algumas regras gerais:
Ninguém podia deixar nada fora do lugar.
Era proibido comer na sala, derrubando farelos no tapete.
Todo mundo tinha que deixar o banheiro impecável quando usasse.
Os copos usados deviam ser imediatamente lavados e guardados.
Tudo isto para facilitar o trabalho que agora era de todos.
 
A regra número um, que ninguém podia mesmo desrespeitar, é que não podiam aborrecer a Mamãe porque ela estava dodói (quando ela sarasse podiam aborrecê-la à vontade).
 
As crianças se fiscalizavam mutuamente, discutiam, reclamavam, mas acabavam fazendo o serviço.
 
Pendurar a roupa lavada era tarefa dos garotos e as meninas monitoravam:
- Pendura essa roupa direito para não amassar!
- Deixa de ser chata. Penduro como quiser
- Então QUEIRA pendurar direito.
-                         
- Pai! O Joãozinho sujou o chão da cozinha.
- Eu já limpei a casa uma vez e não vou limpar de novo. Quem sujou que limpe.
- Eu não vou limpar porque o Luizinho também sujou e não limpou.
- Mentira!
- Eu não sei de nada. Alguém tem que limpar!
- Eu não limpo!
- Nem eu!
- Paaaaaai!
 
O garoto reclamava:
- Você faz ovo frito todo dia. Sabe muito bem que eu não gosto!
- Mas eu gosto. Sou eu que cozinho e tenho direito de fazer o que quiser.
 O outro reclamava:
- A comida está muito salgada.
 
O Papai intervinha conciliador:
Deixem de histórias. A comida está muito boa.
 
Enquanto isso a Mamãe, com a perna engessada espichada sobre uma banqueta, passava os dias tranqüilamente folheando revistas, assistindo a Seção da Tarde, conversando com as visitas.
 
Há muito tempo não recebia visitas. Todas suas amigas trabalhavam, tinham pouco tempo e sabiam que ela também era muito ocupada. O hábito de visitar-se foi pouco a pouco se extinguindo. Mas agora, caso de saúde, todas apareceram e passaram tardes alegres, jogando conversa fora.
 
As amigas lhe emprestaram romances para ela ler e passar o tempo. Ela nem lembrava mais há quanto tempo não lia um romance e reviveu toda a emoção de sua adolescência lendo açucaradas histórias de amor.
 
Todas as manhãs o marido colocava a sua cadeira na frente da casa para ela tomar um pouco de sol e ela aproveitava para ver como estavam bonitos os jardins, todo floridos.
 
Lembrou-se de que estavam na primavera e sorriu ao pensar a quanto tempo não parava para
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Maith

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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