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Publicado: Segunda-feira, 19 de outubro de 2009

As duas mães

Thaysa e Dorothy nasceram no mesmo hospital, quase na mesma hora e suas mães ocuparam o mesmo quarto.

Helena e Paula, com as bebezinhas recém-nascidas, tinham muito em comum e os três dias que passaram juntas as tornaram muito amigas.

Mal sabiam elas quanto e como suas vidas se entrelaçariam!

Júlio marido de Helena, tanto quanto lhe era permitido, estava ao lado da esposa, cumulando-a de carinho encantado com a filhinha.

Paula, porém, não tinha a mesma sorte.

Nestor, o marido, não queria filhos e ficou furioso quando ela engravidou. Queria que ela abortasse, mas ela enfrentou-o levando a cabo a gravidez.

Ele acabou se conformando, mas nunca demonstrou interesse muito menos afeto pela filhinha que chegaria.

Agora, Paula estava apreensiva. Ele não veio vê-la nem uma única vez e ela imaginava o quanto ia ter que lutar para fazê-lo aceitar a menina.

Helena procurava confortá-la:

- Quando ele vir essa belezinha vai mudar de atitude, você vai ver.

Mas nem ela mesma acreditava nisso e morria de pena da companheira.

No dia que saíram, Helena, abraçada pelo marido que com o outro braço carregava desajeitadamente o bebê, ainda viu a outra, afastar-se sozinha, carregando a criança e a sacola e ficou muito penalizada.

Passou mais de um ano.

Helena, às voltas com os cuidados à filhinha, acabou esquecendo-se de Paula, até o dia em que surpreendeu-se ao ser chamada, com o marido, ao hospital para fazer uns exames.

E foi então que perplexos inteiraram-se do surpreendente acontecimento.

Heitor, marido de Paula, desde que a filha nasceu vinha brigando com Paula, acusando-a de infidelidade. Dizia que a menina não era sua filha e acabou obrigando-a a fazer o teste de paternidade que comprovou que realmente, Doroti não era sua filha... nem da Paula. Chegaram à conclusão de que o bebê fora trocado e abriram um processo para esclarecer os fatos.

Dorothy, o bebê de Paula, havia sido trocado no hospital quando nascera e, como a única menina nascida naquela noite... como as mães ocuparam por três dias o mesmo quarto...

Helena e Júlio não conseguiam assimilar o que estavam ouvindo. Que loucura! Aquilo não podia estar acontecendo!

Submeteram-se aos exames e foi confirmado. Realmente as crianças tinham sido trocadas.

A primeira reação de Helena foi:

- Não! Não quero destrocar! Vamos deixar como está!

- Não é possível. Por lei, são os pais biológicos que devem ficar com os filhos.

Julio e Helena já tinham reparado que a filha não se parecia com eles, mas não deram importância a isso. As crianças podem herdar características de parentes distantes. 

Mas, quando Helena viu a outra menina, não teve dúvida. Aquela era a sua filha. Tinha os olhos inconfundíveis do Júlio, aliás, ela se parecia muito com ele e Helena desde que a viu tomou-se de amor por ela.

Mas, por outro lado, não queria separar-se da Thaysa que ela amamentara, cuidara com tanto carinho e que o Júlio chamava de “Minha Princesinha”.

Como é que poderiam deixar que a levassem?

Mas a troca foi feita.

Paula levou a Thaysa, que na verdade era a Dorothy e deixou a Dorothy, ou melhor, dizendo a Thaysa com a sua mãe biológica.

Não há palavras para descrever a angústia das duas. Como sempre, Helena apoiava-se em Júlio que lhe enxugava as lágrimas enquanto Paula foi embora sozinha carregando a filha que chorava assustada desconhecendo-a.

Combinaram que Paula traria Dorothy para ver os pais postiços todos os dias. Assim ela também conviveria um pouco com Thaysa até que todos se acostumassem com a nova situação.

Thaysa estava magrinha, maltratada e tinha sinais evidentes de violência. Paula não negou que Nestor a espancava.

Júlio e Helena ficaram muito preocupados com o que ele poderia estar fazendo com a Dorothy, que eles consideravam como sua filha também.

As crianças estranharam muito a mudança de casa, de família, de nome. Choravam muito e Nestor se impacientava e agredia a Dorothy.

Júlio não se conformava com isso.  Mesmo que se tratasse de crianças estranhas ele se revoltaria, quanto mais sendo as suas filhinhas.

Sim, porque ele não deixava de considerar as duas como filhas legítimas.

E foi então que levantou a hipótese:

- Foi Nestor que trocou as crianças.

Helena contestou:

- Que paranóia é essa? Como é que ele ia fazer isso? Foi descuido do pessoal do hospital, isso sim!

- Pois eu garanto que foi ele! O hospital tem um esquema de segurança para garantir a identidade das crianças. Só uma ação criminosa poderia ocasionar uma troca de bebês.

- E como ele conseguiria fazer isso?

- Subornando algum funcionário, é claro.

Era inacreditável, mas a ocorrência toda era absurda.

O Hospital estava pronto para por panos quentes no assunto.
A polícia queria arquivar o caso.

Mas o Júlio não sossegou enquanto não conseguiu provar que suas suspeitas tinham razão de ser, que, de fato, Heitor de conivência com uma funcionária, tinha feito a troca dos bebês, só para armar toda essa confusão e aborrecer a Paula.

Nestor foi preso.

Paula com a filha mudou-se para um apartamento ao lado do de Helena e Júlio.

Estão sempre juntos, agora. As meninas estão crescendo lado a lado e têm, na verdade, duas mães e um super paizão cada uma.

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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