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Publicado: Segunda-feira, 6 de julho de 2009

As debutantes

São Francisco da Cachoeirinha era uma pacata cidadezinha perdida no mapa onde seus poucos habitantes se conheciam muito bem, frequentavam o mesmo clube, o mesmo cinema, a única igreja e, de um modo geral, eram todos muito amigos.
 
O Ramiro, da farmácia, o Silva do cartório, o Emanuel da serraria, o Pablo da padaria, o Lazinho, alfaiate... Todos mui amigos em tempos de bonança, companheiros de pescaria e jogo de cartas, mas acirrados inimigos na época das campanhas políticas.
 
Ramiro e Silva lideravam os dois partidos oponentes. Cada um deles tinha o seu eleitorado certo, seus fieis correligionários, mas, havia a população flutuante que era mister conquistar, os professores que falavam bem e faziam os discursos nos comícios, os comerciantes que tinham muito prestígio e podiam conseguir muitos votos, os fazendeiros que, embora muitos deles nem fossem eleitores por serem analfabetos ou estrangeiros, tinham dinheiro e numa campanha o dinheiro é primordial, pois, muito mais do que promessas o que motiva a maior parte dos eleitores são os presentes, o churrasco no dia da eleição, etc.
 
E foi no auge de uma campanha que Laura, a filha do Ramiro, completou quinze anos e foi cobrar do pai a festa que ele tinha prometido há muito tempo.
- Nem pensar! Estou ocupadíssimo e não tenho tempo nem dinheiro para gastar com festas.
- Mas, Papai, você prometeu!
 
É engraçado como temos facilidade para prometer algo para daqui a alguns anos e só depois, quando chega a hora, avaliamos as dificuldades.
 
Laurinha insistiu, fez biquinho, ameaçou chorar, mas nada adiantou. A política tinha o dom de transformar o paizão carinhoso e compreensivo num déspota insensível.
 
Laura comenta o fato com sua amiga Talita, filha do Silva que, coincidentemente, também estava fazendo seus quinze anos.
- Chii! Laurinha, eu também não vou ter festa de debutante. Meu pai disse a mesma coisa que o seu. Não tem dinheiro para gastar com festas por causa da eleição.
- Droga de política!
- Mas, peraí que eu estou tendo uma idéia:
- Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!
- Kkkkkkkkkkkkkk...
- Kkkkkkkkkkkkkkk...
 
À noite, Talita diz ao pai assim, como quem não quer nada:
- A Laurinha me convidou para sua festa de aniversário...
- O que? Não me diga que o Ramiro vai dar uma festa em plena campanha eleitoral!
- Vai sim. E acho que vai ser uma grande festa. Já reservaram até a Cobertura do Franciscano...
-Eu não acredito! Isso só pode ser uma provocação!
 
A Cobertura era o espaço mais chic da cidade. Naquele tempo, pelo menos em São Francisco, as festas familiares eram realizadas nas próprias residências. Festas em salão, só os grandes eventos.
 
Talita continua:
- Eu fiquei muito contente. Se não posso ter a minha festa, pelo menos vou me divertir na festa da Laura.
- Isso é que não! Você vai ter uma festa maior do que a dela. Procure saber o que estão planejando para nós superarmos.
 
Oba! O Papai mordeu a isca! Na casa da Laura um diálogo semelhante se trava:
- A Talita já está fazendo os convites para sua festa de quinze anos...
- O Silva vai dar uma festa? Não pode ser! Deve ser só uma reuniãozinha.
- Eu ouvi falar em quinhentos convites...
- Que exagero! Dinheiro jogado fora. Não tem o menor retorno.
 
A mãe intervém:
- Até pode ser que tenha. Sempre é uma ocasião de reunir pessoas...
- Hummm! Não sei, não...
 
No dia seguinte a Mãe tinha uma novidade para a Laurinha. O Pai não só concordou com a festa como disse que sua festa tinha que ser maior do que a da Talita.
 
A partir daí as meninas deitaram e rolaram. Com a cumplicidade das mães, inventaram tudo o que se possa imaginar para incrementar uma festa, roupas caríssimas, a mais bonita decoração, o melhor bufê, a orquestra mais famosa...
 
E foi assim que a sociedade do Patrimônio de São Francisco da Cachoeirinha participou das duas maiores festas de debutantes de toda sua história.
 
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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