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Publicado: Segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

As amigas virtuais

MADONA (Helena) entra na sala de bate-papo.
Sua amiga ESTRELA (Márcia) a cumprimenta:
- Oi, amiga!
 
Ambas passam para o “reservado” e começam a conversar. Todas as tardes, a mesma coisa. Cinquentonas, aposentadas, sem nada para fazer, entravam no chat para conhecer pessoas, bater papo.
 
Helena saíra há alguns meses de um péssimo casamento. Estava feliz, aliviada, livre. Marcos, o marido, era irresponsável, vagabundo, mentiroso, mulherengo. Ela o sustentou durante vinte e cinco anos, em parte, por causa das filhas e, principalmente, porque ele não concordava com o desquite amigável (vê lá se ele queria perder a casa e comida que ela pagava) e ela não tinha coragem de requerer o litigioso.
 
Mas, recentemente, ele envolveu-se com uma mulher mais bem sucedida do que ela e bandeou-se para lá, concordando, então, com o desquite.
 
Márcia, também desquitada, era muito diferente da amiga. Começara a freqüentar os bate-papos na esperança de encontrar o “homem da sua vida”. Helena só queria amizade com as mulheres. Pouco conversava com os homens que via sempre com muita desconfiança.
 
Márcia passava as noites teclando com os namorados. Dizia que os homens bem sucedidos não tinham tempo para bater papo à tarde. Às altas horas da noite é que eles entravam nas salas e quase amanheciam conversando e namorando.
 
A Madona achava graça nas histórias que a outra lhe contava, mas não tinha a menor vontade de perder horas de sono para ouvir galanteio de homens desconhecidos.
Depois de vários encontros virtuais as duas resolveram se conhecer pessoalmente. Foram, uma tarde, tomar um sorvete juntas.
 
Como esperavam, gostaram muito uma da outra e ficaram amigas de verdade.
Helena, no entanto, por motivo que nem ela mesma sabia, não deu a outra o seu nome verdadeiro nem o seu endereço. Disse que se chamava Marina e morava em outro bairro.
 
Pouco tempo depois, Márcia convidou-a para um lanche na sua casa. Marina aceitou o convite, mas não retribuiu Disse que sua casa estava em reforma e que, quando estivesse em ordem, teria prazer em recebê-la. Um sexto sentido advertia-a de que não devia permitir uma proximidade maior com a nova amiga, que amigos virtuais não devem sair da telinha. Ela mesma achava que era bobagem sua, mas não conseguia agir de outra forma.
 
Um belo dia a ESTRELA entrou, eufórica, na sala. Tinha conhecido um homem maravilhoso.
 
- O nick dele é GRÃO DE AREIA. Ele me disse que há uma música antiga onde o grão de areia faz par romântico com a estrela. MADONA deu uma risada:
 
- Esse cara deve ter pelo menos 70 anos, pois quando eu era criança, minha avó cantava uma música assim:
“Um pequenino grão de areia, que era um pobre sonhador,
“olhando o céu viu uma estrela e imaginou coisas de amor”
 
Nada disso. Ele tem 55 anos e disse que aparenta menos ainda. É alto, moreno, tem olhos claros, deve ser lindão!
- Será verdade?
- Claro que é!
- Como pode ter certeza? Já pensou que ele pode ser baixinho, barrigudo, careca?
- Experiência, minha amiga! Nos últimos quarenta anos tive mais de vinte namorados. Conheço os homens. Sei perfeitamente quando estão sendo sinceros. O meu GRÃO DE AREIA não mentiria para mim.
- Pode até ser, afinal não tenho o direito de fazer mau juízo de quem nem conheço. O único homem que conheci foi a peste do meu marido, mas, é claro que existem homens diferentes dele.
- O Bruno é diferente, tenho certeza.
- Então, ele se chama Bruno? Pelo visto o namoro está decolando.
- Claro que sim. Já estamos pensando até em um encontro.
- Você tem coragem de marcar encontro com uma pessoa que só conheceu na internet?
- Por que não? A net é um meio como qualquer outro de se conhecer. Você está sendo preconceituosa.
- Pode ser. Desculpe!
 
Passaram-se mais alguns dias.
Numa sexta-feira a ESTRELA entrou na sala e foi logo contando a novidade para a amiga: Ia encontrar-se com ele em um barzinho. Tomar um chope e, quem sabe? Esticar o programa... Marcar alguma coisa para o sábado, o domingo...
- Você deve estar maluca! Será que não tem medo?
- Medo de que? Se eu não gostar dele, descarto. Mas tenho certeza de que vou gostar, já o conheço muito bem. Chegamos a passar a noite toda teclando. Isto é quase como um casamento.
- Um casamento? Nem parece que você já foi casada, que sabe o que é um casamento.
- Eu disse “quase”, isto é, só a parte boa do casamento.
 
A outra sorri da ingenuidade da amiga.
Se não a conhecesse pessoalmente diria que você á uma menina de quinze anos.
Meu coração ainda tem quinze anos.
- Hummm!!
 
Segunda-feira seguinte
MADONA está na sala esperando ansiosamente pela amiga. Não pode deixar de ficar curiosa para saber o resultado do encontro e quando a ESTRELA entra vai logo perguntando:
- E então?
- Você nem imagina! Ele é maravilhoso! É tudo o que dizia e muito mais.
- Verdade? Que bom!
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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