Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Amor a distância

Numa cidade do interior um grupo de jovens fazia teatro amador.
O elenco era muito unido e entusiasmado.
 
Faziam de tudo, escreviam as peças, armavam o palco, confeccionavam as fantasias, pediam espaços emprestados, faziam a propaganda e depois se apresentavam para o seu público, amigos, colegas de escola ou de serviço, familiares, criançada, praticamente a cidade inteira, todos que quisessem assistir um “grande espetáculo”.
 
Dentre os “artistas” havia um que se destacava dos demais, Gustavo, que sempre fazia o principal papel por ser indiscutivelmente muito melhor do que os outros. Célia sempre fazia com ele o par romântico. Não era lá essas coisas como atriz, mas era a namorada dele. Tinha direito.
 
Gustavo, já então, demonstrava ser um ator nato para desespero de seu pai, um sargento do Exército que sonhava para o filho uma carreira militar brilhante, coronel, quem sabe até general, tudo aquilo que ele próprio sonhara e não conseguira realizar.
 
Mas Gustavo acabou infiltrando-se no meio artístico e deixou a cidade para estudar numa escola de arte e trabalhar na Capital. Das atuações como figurante e pontinhas nas novelas, ele, rapidamente passou a ocupar lugar de destaque e em pouco tempo era um ator consagrado, atuando na televisão, no teatro, no cinema.
 
O namoro com a Célia durou pouco tempo depois que ele saiu da cidade. Terminou sem briga, sem choque. Aos poucos foi esfriando e aniquilando até acabar em nada. Ele gostava da Célia, mas não era apaixonado por ela e agora tudo que lhe importava era a sua carreira, o seu sucesso.
 
Célia era apaixonada por ele, mas, não fazia o tipo de mulher que se deixa acabar por um amor não correspondido. Tratou logo de reagir e, de namorada, promoveu-se (ou rebaixou-se?) a fã.
 
Assistia todas as apresentações que podia, colecionava tudo que se referia a ele, toda publicação que lhe chegava às mãos e guardava tudo, muito bem guardado e arquivado, junto às lembranças do tempo em que foram namorados, em uma gaveta a que deu o nome de Gaveta do Gustavo.
 
Muitas vezes se misturou às fãs que o assediavam depois de um espetáculo para pedir um autógrafo. Nessas ocasiões ele a chamava distraidamente pelo nome:
 
- Olá, Célia, como vai?
 
E voltava-se para as outras sem nem ouvir sua resposta.
 
Essas coisas não desgostavam a Célia, pelo contrário, ela sorvia, deliciada, o mínimo de atenção que ele lhe dava. Sabia que, quanto mais ele subisse, mais longe ficaria dela, mas, mesmo assim, vibrava com o sucesso dele. Seu amor por ele, já então, conseguia ser absolutamente desinteressado. Sentia-se verdadeiramente feliz vendo-o triunfar.
 
Uma vez teve uma grata surpresa. Foi convidada para participar de um programa onde ele seria entrevistado. Esses programas que levam os familiares, amigos de infância, professoras primárias, etc. Ela seria apresentada como sua primeira namorada. Ficou eufórica. Ia vê-lo de perto. Aparecer ao seu lado na televisão. Ter o seu momento de glória a sombra dele.
 
Mas teve uma decepção. Ele chegou à última hora, afobado, atrasado para a gravação e tão logo fez a encenação diante das câmeras e estas foram desligadas, saiu apressado, pois já estava atrasado para outro compromisso.
 
Célia compreendeu que o perdera mesmo. Para ele, ela nada mais era do que a primeira namorada que ficou lá no interior, perdida entre as lembranças da adolescência.
 
Mas, não se deixou abater. Tocou sua vida para frente. Estudou, formou-se, realizou-se profissionalmente, teve vários namorados, mas nunca se casou, segundo ela afirmava, por opção.
 
Na falta de filhos, adotou os sobrinhos e os filhos dos seus amigos. Não faltavam crianças a sua volta. Tinha uma vida movimentada e era feliz. E a Gaveta do Gustavo ia se enchendo cada vez mais.
 
Contava a todos com quem conversava, com muito orgulho, que tinha sido namorada do artista famoso. Não mentia, mas, carregava um pouco nas tintas.
 
Já os sobrinhos quando falavam da tia famosa por ter namorado o ídolo, davam cordas à imaginação e cada um inventava uma história mais sensacional. Um dizia que os dois, certa vez, fugiram e ficaram juntos um tempão escondidos em um barraco abandonado. Outro dizia que a tia tinha tentado suicídio por causa dele. Outro afirmava que havia um filho dos dois escondido em alguma parte. Outro inventava que o Gustavo pediu a tia em casamento muitas vezes, mas ela não aceitou.
 
E, por ai afora...
 
Célia disse, certa vez, a eles que, quando ela morresse, queria que todo seu acervo guardado na Gaveta do Gustavo fosse incinerado junto com o seu corpo.
 
- Credo, Tia! Que coisa mais macabra!
 
- Eu acho melhor a gente compilar tudo e fazer um livro.
 
- E eu já acho que a gente devia era vender para alguma admiradora fanática.
 
Mas, ninguém precisou se preocupar, tão cedo, com o destino da Gaveta do Gustavo porque a Célia teve uma vida longa e pode curtir o seu tesouro por muitos e muitos anos.
 
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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