Colunistas

Publicado: Quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Agosto Dourado

Crédito: Imagem Ilustrativa Agosto Dourado

Você já ouviu falar do agosto dourado? No mês de agosto se realiza a campanha de conscientização e incentivo ao aleitamento materno. A campanha em questão foi garantida por lei em 2017, visando intensificar as ações que promovem esclarecimentos sobre a importância da amamentação para mãe e bebê. Inúmeras atividades podem ser realizadas por instituições públicas, privadas e/ou organizações não governamentais para auxiliar a reflexão sobre a temática com a população. Algumas ações são: palestras, eventos, ações pelas mídias (rádio, televisão, redes sociais), atividades em comunidades entre outros.


O agosto dourado está imbricado com as lutas sociais, que ao decorrer dos anos, através de diversos movimentos da sociedade civil pautados por estudos científicos que comprovam os benefícios do aleitamento materno, ganhou força no cenário nacional auxiliando na conscientização da população. Desta forma é fundamental compreendermos sobre a importância dessa temática para a promoção de saúde coletiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) é recomendado o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida do bebê e o aleitamento com outros alimentos complementares até pelo menos dois anos de idade devido a importância nutricional que o leite materno favorece para o desenvolvimento físico e emocional da criança. Além dos benefícios nutricionais, o aleitamento materno pode evitar uma série de aspectos negativos para o desenvolvimento saudável do individuo, como por exemplo: diarréia, infecções respiratórias, mortes infantis, diminuição de risco de hipertensões, diminuição de colesterol alto, diminuição de risco de diabete, reduz chance de obesidade, entre outros.


Entretanto, existem dificuldades que atrapalham a amamentação em nossa sociedade. Infelizmente, mulheres encontram inúmeras barreiras para seguir com o aleitamento materno com seus filhos. Apesar das campanhas que promovem a conscientização, de inúmeros estudos científicos que apresentam os benefícios da amamentação, de diversas instituições e profissionais da saúde trabalhando para favorecer o aleitamento e de lutas sociais para garantir o direito da mulher em amamentar seu filho, ainda encontramos uma cultura que não proporciona um cenário favorável para o aleitamento materno, ao contrário, muitas vezes mulheres são pressionadas para que ocorram o desmame precoce.


As reflexões sobre o aleitamento materno devem ir além dos aspectos nutricionais e emocionais que essa fase proporciona para mãe, bebê e sociedade. É fundamental problematizarmos sobre as dificuldades sociais e culturais encontradas para que a mãe amamente seu filho. As tribulações estão em muitos espaços em nossa sociedade, como por exemplo: A erotização do seio feminino que faz com que muitas mulheres se sintam e/ou vivenciem violências sociais (por pessoas próximas e/ou não) ao amamentarem em público; os altos índices de mitos passados de maneira transgeracional sobre “receitas mágicas” para o “sucesso” do aleitamento materno; A epidemia de violências obstétricas que mulheres sofrem; Apesar da campanha e altos estudos científicos, as informações ainda não chegam para grande parte da população; O mito do amor incondicional através da amamentação; as legislações no Brasil, visto que, muitas mulheres retornam ao trabalho antes dos sexto mês do filho (período que recomenda-se o aleitamento exclusivo); Diversos ambientes de trabalho que ainda não estão preparados para que mulheres façam o estoque do leite durante o período de trabalho; Desrespeito as demandas da mulher; A indústria de fórmulas e equipamentos que vendem “métodos facilitadores” para “auxiliar” a mãe nesses momentos; Profissionais de saúde desatualizados que orientam com informações inverídicas gestantes e mães etc.


Portanto, são de extrema importância que as campanhas de aleitamento materno transcendam as discussões nutricionais e emocionais (que são de extrema importância), ou seja, que promovam reflexões e ações que coloquem em pauta os dilemas e dificuldades sociais/culturais que as mulheres encontram diariamente no Brasil para iniciar e manter a amamentação no período recomendado pelas organizações referências em saúde. Desta forma, poderá favorecer as transformações e criações de políticas públicas, leis, consciência social entre outros, que modificarão o cenário do aleitamento materno em nossa sociedade de maneira benéfica e respeitosa para a mulher. Pois atualmente o ato de uma mãe amamentar seu filho continua sendo uma ação de militância e luta diária contra um sistema retrógrado e de cunho machista! É evidente que ainda existem muitas lutas e conquistas de espaços para que as mulheres sejam respeitadas nesse período de sua vida, sendo assim é um papel de todos auxiliarem na transformação dessa realidade, para nos aproximarmos de uma sociedade mais justa e igualitária que inevitavelmente trará apenas benefícios para todas as pessoas envolvidas.
 

Comentários

Maternidade & Paternidade

Diego Henrique Perez

Diego Henrique Perez

Formado em Psicologia pelo CEUNSP com pós-graduação em Psicologia Clínica em Saúde Reprodutiva da Mulher e Hospitalar pela UNICAMP. Educador Perinatal pelo GAMA e colaborador do grupo GAIA. Dedica-se a grupos de patern/matern, atendimentos em psicoterapia

Arquivo

26 de dezembro de 2018

A artesã e a mãe

16 de agosto de 2018

Agosto Dourado