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Publicado: Segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A sorte é para quem tem

Os funcionários de uma agência bancária resolveram unir-se e fazer semanalmente um joguinho na Loteca.

Lima, o gerente, não quis participar, não gostava de misturar-se com os subordinados.

Patrício também não:

- Essas coisas sempre acabam mal. Lá na Agência onde eu trabalhava...

Mas os demais começaram a fazer, toda semana, uma fezinha.

Leôncio era o mais velho, de idade e de casa. Era o único que já tinha netos e os outros o estimavam muito e o chamavam carinhosamente de Vovô. Foi ele o encarregado de arrecadar o dinheiro e fazer o jogo.

Resolveram que iam perseguir uma série de números e ele, muito meticuloso, colocou uma cópia dos números na mesa do ponto e toda segunda feira trazia o comprovante do jogo e colocava ali, também, para que ficasse a semana toda, e todos pudessem conferir.

Mas, todos confiavam plenamente nele e, como na segunda, todo mundo já sabia o resultado do sorteio, ninguém prestava muita atenção a este detalhe.

Semanas, meses e anos se passaram e nada!

Como jogavam pouco, ninguém se preocupava muito com o gasto e apesar de saber quão remota era a probabilidade de ganharem, achavam que estavam dando uma chance para a sorte.

Mas um belo dia tiveram uma surpresa. Deu os seus números!

Era sábado. Fim de semana prolongado, muitos funcionários estavam viajando.

Mauro foi o primeiro a saber.Telefonou para o Carlos.

Carlos para a Eliete...

Sandra para Marina...

Alceu para Renato...

Julio e Nestor telefonaram lá da praia.

Darci, Helena, Moisés... Todo mundo se agitou, procurou pelos colegas para comentar, excitados e radiantes.

Só o Leôncio não se manifestou, logo ele que levava tão a sério o jogo!

Ligaram para a casa dele e ninguém atendeu.

Começaram a ficar ansiosos, mas, era feriado, nada mais natural que ele tivesse viajado com a família.

Tinham que segurar a ansiedade e esperar até quarta-feira.

Mas quarta-feira todos retornaram ao trabalho, menos o Leôncio.

Já tinha sido divulgado que saíra o prêmio na cidade e que o ganhador era um funcionário do Banco Nacional.

Ficaram um pouco mais tranqüilos. Pelo menos tinham a certeza de que ele fizera o jogo e já recebera o prêmio.

Mas, por que não se manifestava?

Uma débil suspeita começava a insinuar-se, mas ninguém tinha coragem de falar (por enquanto).

Alguns já estavam “gastando” o dinheiro extra.

Alfeu falava em comprar um carro novo pra ele e outro para a mulher.

Dirceu pôs o apartamento à venda e já estava procurando uma casa para comprar, em um condomínio.

Maristela sonhava alto com viagens à Grécia, ao Egito e outras plagas mais.

O marido da Salete, vez por outra, dava uma passadinha no Banco para saber as novidades, impaciente demais para esperar que ela chegasse em casa para contar.

Em todos, porém, uma pontinha de preocupação:

E o Leôncio? Por que não dava sinal de vida?

O gerente estava mais enfezado do que de costume. Na verdade estava mordido por não estar participando da bolada e implicado com o clima de agitação do pessoal.

Quando foram perguntar se sabia do Leôncio ele respondeu evasivamente que ele telefonou pedindo para tirar umas abonadas a que tinha direito.

- Ele disse por que queria tirar essas folgas agora?

- Não. As folgas são direito dele. Ele não precisa justificar nada.

- E você sabe onde ele está, tem o telefone, o endereço?

- Não.

- Ele não falou nada do dinheiro? Você não perguntou?

- Claro que não. Ele não telefonou para bater papo.

Ninguém mais tinha dúvida. O Leôncio tinha fugido com a grana. A parte de cada um não era grande coisa, mas o prêmio todo era um bom dinheiro.

E agora? Fazer o que?

Aquela semana parecia não acabar mais.

Foram à Lotérica, o funcionário disse que não podia dar informação, mas acabaram descobrindo que o prêmio, realmente, já tinha sido pago.

Estava provado. O Leôncio recebera o dinheiro e desaparecera.

- Quem havia de esperar uma coisa dessas!

- O que o dinheiro pode fazer com o caráter de uma pessoa!

- Eu acho que a gente devia ir à polícia.

O Lima intervém irritado:

- Ir à polícia? Vocês não têm direito nenhum, não têm prova de nada.

Se ele quiser ficar com o dinheiro, fica, e ninguém pode fazer nada.

Quando, na segunda-feira seguinte Leôncio entrou, cumprimentando alegremente os colegas, notou o clima pesado e perguntou: 

- O que está acontecendo aqui?

- Nós é que perguntamos: Cadê o dinheiro?

- Que dinheiro?

- Não se faça de desentendido. O dinheiro do jogo. Você não vai prestar contas?

- Mas nós não ganhamos nada.

- Como não? Deixe de brincadeira que a turma aqui está em brasas.
Alcindo puxa do bolso a lista dos números e a listinha da loteria e quase encosta no nariz do Leôncio:

- Olhe aqui! Nós ganhamos, sim!

- Mas vocês não lembram que nós decidimos mudar os números?

Esta é a nova lista, mostrou ao colega atônito, e aqui está o comprovante. Infelizmente não era a nossa vez, ainda!

Todos lembraram que realmente, tinham comentado que aqueles números estavam muito frios e pensaram em mudar.

- Mas, não ficou nada decidido. Era pra jogar nos mesmos números.

- Como não? A nova lista está lá na mesa. Podem conferir.

- Eu não concordei. Sempre achei que devíamos continuar perseguindo aqueles números.

- Eu então nem ouvi essa conversa. Não estava sabendo de nada.

-Vamos acabar com esta palhaçada. Já sabemos que você recebeu o dinheiro. Pode começar a pagar o que deve.

- Imagine! Já disse que joguei nos outros números. Está aqui o comprovante. Se errei, me desculpem!

- Só isso que tem para nos dizer? “Desculpem-me”?

- Que querem que eu faça? Que pague o prêmio a vocês?

- É o que devia fazer, já que recebeu o dinheiro que era de todos nós.

- Pelo amor de Deus, gente! Eu não recebi nada! Nunca faria uma coisa dessas! Vocês estão me chamando de ladrão?!

A impaciência do Lima chegou ao limite e ele disse quase gritando:

- Vamos acabar com essa discussão.  Estamos aqui para trabalhar e acho bom que cada qual vá para seu lugar imediatamente. Não quero nem mais uma palavra sobre este assunto.

Nervosos e aborrecidos foram se dispersando, mas o Patrício ainda botou mais u

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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