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Publicado: Terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A saideira

Desde que Mayara marcou o casamento, Priscila, sua mãe, não teve mais sossego.

Não tinha certeza de que Paulo fosse o marido ideal para sua filha, mas, quanto a isso não podia fazer mais nada. Só lhe restava cuidar para que tudo, no casamento da filha, fosse mais do que perfeito.

Mayara brincava com a mãe:

- Perfeito já é superlativo, não existe mais do que perfeito.

- Antigamente havia um tempo de verbo com esse nome, não sei se ainda existe ou se já mudaram.

Mayara não estava nem um pouco interessada em nomenclatura gramatical:

- Vou ao cinema com o Paulo.

- Ao cinema? Nas vésperas do casamento com tanta coisa para providenciar?

- Ora, Mamãe, namorar no cinema é uma das melhores coisas desta vida.

E saiu com o noivo deixando a mãe preocupada com os detalhes da sua festa de casamento.

Ninguém mais aguentava o nervosismo da Priscila.

Não dormia nem deixava o marido dormir:

- Benhê!

- Zzzzzzz

- BEM!

- Humm!

- Eu estava pensando.... que você acha?

- Tudo bem!

- Mô!

- Que foi?

- Será que,,,,

- Pode ser...

- Renato!

- Chega! Durma e me deixe dormir!

Chorando:

- Você nunca me tratou assim. Não vê que estou nervosa, preocupada?

- Desculpe, mas agora, por favor, vamos dormir.

Maria e Dulce, as empregadas não aguentavam mais o bombardeio de ordens, de reclamações, de exigências.

- Nóis devia sair as duas de uma vez. Deixar ela na mão pra ela ver o que é bom pra tosse.

Mas, não fizeram isso. Precisavam do emprego e Priscila em “tempos normais” era boa patroa. Haja paciência!

No dia do casamento, Renato estava zangado com a Priscila por conta de uma discussão que tiveram na véspera. Não falava com ela e não respondia quando ela tentava uma aproximação.

E agora?

Renato era incapaz de tomar um banho sem a sua ajuda (assim ela pensava).

Esquecia de pegar a toalha, perdia um pé da meia, não achava o cinto, não sabia qual camisa devia por, etc.

Ela tentou de todos os modos uma aproximação, mas ele estava enfezado de verdade e recusou-se a responder-lhe.

Como é que ele ia aprontar-se sozinho?

Era capaz de aparecer na Igreja com a camisa no avesso, a gravata torta ou um sapato diferente do outro!

Mas, nada disso aconteceu.

Renato estava impecável. Conduziu a noiva com toda a elegância, depois ficou ao lado da esposa recebendo os convidados, fazendo as honras da festa, como se tudo entre eles estivesse às mil maravilhas.

Já bem tarde voltaram para casa.

Priscila estava cansada, deprimida, muito triste, sentindo-se muito só, sem a filha e de mal com o marido. Queria morrer!

Mas, para sua surpresa, Renato apareceu sorridente com duas taças nas mãos:

- Olhe a saideira!

Cruzaram as taças, tomaram um gole, depois Renato tomou-a nos braços e levou-a carregada para o quarto.

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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