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Publicado: Quinta-feira, 22 de julho de 2010

A pergunta que não quer calar

A pergunta que não quer calar

Outro dia assisti à uma matéria na televisão mostrando que a moda do molusco vidente começa a se espalhar. Na Austrália, consultaram um polvo sobre o resultado das eleições que ocorrerão em setembro desse ano. O polvo foi direto no candidato do partido trabalhista. A verificar.

Fiquei pensando quais perguntas faria a um polvo supostamente vidente. De cara tiraria uma dúvida que paira sobre toda essa história: Sr Polvo - sei que parece meio infantiloide referir-se ao Polvo usando o “Sr”, mas  pelo sim pelo não é melhor respeitar o pernudo –, qual a explicação para seus acertos nos prognósticos que têm feito?

Como o animal não responde por extenso, teria que oferecer alternativas para serem colocadas naquelas caixas que são mergulhadas no aquário. A caixa abraçada pelo polvo é considerada o palpite do bicho.

Ofereceria as seguintes alternativas como resposta a essa primeira pergunta:

a) Polvos têm clarividência e b) mero acaso.

Se a resposta fosse a alternativa “b” estaria tudo acabado e o polvo pagaria caro pela sua sinceridade. Se fosse alternativa “a” então eu faria uma verdadeira inquisição ao polvo.

Começaria com perguntas simples cujas alternativas de respostas seriam um simples sim ou não. Mantendo a tradição que deu origem a tudo, perguntaria se o Brasil ganhará a copa de 2014. Na verdade, essa pergunta seria mais para descontrair o molusco do que para saciar uma curiosidade minha.

Então se seguiriam as perguntas cujas respostas realmente me interessam: algum dia cumprirei as promessas que faço no reveillon? Serei contemplado com a bolsa a que estou concorrendo na Funarte? Deus existe? Há vida após a morte? O abacateiro que plantei vai vingar? Existe vida inteligente fora da Terra? E dentro dela?

Se percebesse que o polvo estivesse gostando de responder às perguntas então, aproveitando que polvos têm oito mãos/tentáculos, seguiria aquele ditado que diz “quando a gente dá a mão logo pedem o braço”.

Passaria à segunda fase onde as alternativas de respostas seriam mais elaboradas e exigiriam mais esforço para serem respondidas. Começaria com: alguma mulher com quem transei já fingiu o orgasmo? Respostas: a) óbvio que sim; b) também fico me perguntando isso, sou um polvo macho.

Por que medindo um metro e noventa e pesando apenas setenta e três quilos ainda tenho barriga? a) esse é seu biótipo ou b) Deus é gozador. Dando continuidade à sessão narcísica perguntaria se ficarei completamente careca ou manterei alguma região da cabeça com cabelo. Alternativas a serem oferecidas ao polvo: a) você já está completamente careca ou b) passe limão com mel na cabeça todas as manhãs.

Então passaria às perguntas com caráter mais altruísta: a humanidade caminha em direção a dias melhores? a) não seja tolo ou b) sim, pois pior do que está é impossível.

Caso existam ETs, eles seriam amistosos? a) caso existam?! Ou b) não faço a menor ideia, vivo no mar.  Um dia desenvolveremos uma vida mais espiritualizada? Resposta a) não sou supersticioso ou alternativa b) não seja supersticioso.

Para não cansar o Polvo exigindo muito de seus oito cérebros faria só mais algumas perguntas. Afinal, é verdade que misturar vários tipos de bebidas alcoólicas potencializa o porre? a) não, o que interessa é só a quantidade de álcool ingerido ou b) vá plantar batatas. Por que as mulheres são tão indecifráveis? a) Deus é gozador ou b) não sei, já disse que sou um polvo Macho.

Para encerrar, mostraria a ele os sinais do código morse, se é que ele já não conhece, e pediria que fizesse suas considerações finais através de toques no vidro do aquário.

Uma vez li num livro, cujo título não me lembro, que o sábio tem as perguntas certas e não as respostas. Será que o Polvo saberia perguntar? a) com certeza perguntaria melhor do que o autor dessa crônica ou b) claro que sim, afinal a voz do polvo é a voz de Deus.

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Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

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